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Artigo: “Pálido ponto azul”

Em 1990, quando a Voyager 1 completava sua visita ao Sistema Solar, o astrônomo Carl Sagan pediu que fosse feita uma fotografia da Terra. Àquela distância, nosso mundo pareceu um simples pontinho no Universo. Fascinado com a visão, Sagan disse que dali a Terra não passava de um “pálido ponto azul”.

              Ficamos sempre impressionados com a nossa insignificância perante o Universo. Quem duvida da existência de Deus, para prosseguir seu ateísmo precisa primeiro fazer a lição de casa, precisa desvendar os segredos do Cosmos para somente assim, depois de concluir esse estudo, arvorar-se contra a existência da Divindade.

              Certo intelectual afirmou que quando o homem disser ter conhecido o Universo, então ele terá apenas aberto a porta do quintal de casa. O Universo é algo tão inimaginável que dele ainda muito pouco sabemos. Não sabemos, por exemplo, se o Universo é algo pulsátil ou de expansão ilimitada. Tudo que a ciência sabe de certo mesmo é que as galáxias se expandem a partir de um ponto central imaginário do Cosmos. Esse estudo da expansão das galáxias acontece por meio da verificação do prisma. Neste aspecto, a cor vermelha predomina, o que significa que os corpos celestes estão se afastando. É este estudo que o  telescópio James Webb está aprofundando agora.

              Enquanto a ciência se debruça sobre o enigma do Universo, vivemos mil e uma situações neste pálido ponto azul. Impérios continuam oprimindo as pessoas. Somos o único planeta habitado, pelo que sabemos, no entanto, vivemos debaixo da tirania de poderosos, que coexistindo conosco em idêntica condição, tentam viver como semideuses.

              O importante, porém, é saber como vivemos nós mesmos neste planeta. Acredito que o deslumbramento por nossa existência aqui deve ser o primeiro requisito que nos torna dignos do mundo. Em sua Carta aos Romanos, o grande apóstolo Paulo alertou que essa contemplação representa a primeira forma de revelação da Divindade, a manifestação mais rudimentar, à qual todos estamos sujeitos.

              Quando acordamos, pode parecer que o dia de hoje é mera repetição de ontem e uma antevisão do amanhã. Engano! Cada dia é um capítulo único de nossa aventura neste pálido ponto azul. Este dia representa tudo. Ele condensa tudo que somos. Todavia, quantas pessoas vivem fora dessa sincronia? Quantas estão fora do seu tempo cronológico, vivendo este dia com a cabeça no passado ou no futuro, adoecendo e desperdiçando a oportunidade única que temos?

              Talvez o estudo da Astronomia seja algo muito distante da gente. De fato, pensar em anos-luz é algo complicado. O mundo macroscópico do Cosmos foge muitas vezes à nossa compreensão. Entretanto, temos um pedacinho de mundo onde vivemos, temos um pedacinho deste minúsculo ponto azul admirado por Carl Sagan. Sendo assim, guardada nossa limitação, esta existência nos possibilita tudo.

Rui Raiol é escritor e membro da Academia Vigiense de Letras 

Publicado no jornal O Liberal em 9/5/2023


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