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Artigo: “Belém, a capital nacional da buzina”

Eu estava em um táxi em João Pessoa quando uma buzina soou no congestionamento. O motorista, sem saber minha procedência, comentou: “É de Belém!”. Foi nessa hora que percebi que, estando há dias na capital paraibana, provavelmente fora essa a primeira vez que escutava o desagradável som. Fiquei impressionado!      Belém é a capital nacional da buzina. Aqui, buzina-se para tudo. Se você pedir um lanche, não se preocupe com a privacidade, quando o entregador chegar, seus vizinhos saberão que você não quer lavar louça: ele buzinará uma, duas e muitas vezes até que você se levante do berço esplêndido. Não basta a campainha, não basta o aplicativo: vai buzinar. Aliás, motocicleta é para alguns condutores uma buzina mecanizada, segunda função da máquina, senão a primeira.        Claro, a buzina é um item importante no veículo. Usada na hora certa, com prudência, pode evitar acidentes graves. O problema é a banalização. Se você estiver em um engarrafamento, passe a vez no direito de buzinar: tem um monte de gente para buzinar por você. Procuro usar essa tática: “buzine!”, diz o carona. Eu respondo: “espere, tem uma fila de buzinas ali atrás ‘. Ainda estou falando, e a sinfonia começa para minha diversão.      Eu aprendi que a buzina estressa primeiro quem a usa. Em algumas situações, deve ser evitada. Existem pessoas a quem devemos evitar manifestar o nosso incômodo, é pior. É bom que não saibam que nos aborrecem, ou vamos ser perturbados em dobro. Não dar armas ao inimigo é uma medida sempre boa. Logo, se o comportamento do condutor que me atrapalha indica uma pessoa difícil de lidar no trânsito, não toco trombeta para avisar que vou passar etc. O mesmo vale para uso de luzes.      Um toque na buzina pode aborrecer muito o próprio condutor. Estressa. Alguns nem usam o local apropriado do guidão: esmurram o volante: já estão bravos. Não. Buzino em último caso. Alguém está com pressa, quer me ultrapassar? Vai em paz, amigo! Lembro o que o Mestre me ensinou a nunca porfiar. Quer correr uma milha? Fique à vontade: corra duas. Quer a túnica? Leve também a capa, pode passar.     Belém é uma cidade atormentada pelo barulho. Casas noturnas sem nenhum tratamento acústico funcionam até o Sol nascer. Fossem igrejas, fechariam no primeiro culto. Impressionante! Motores envenenados rasgam a paz dia e noite. Motocicletas buzinam e aceleram em total desrespeito à cidade. Lembro a sabedoria da Escritura: um só pecador causa  muitos males. Motoristas não se contentam com a visão, em observar se o motorista em sentido contrário vai respeitar a preferência: preferem usar o berrante. Um terror.    As madrugadas de Belém são torturantes para quem mora nos grandes corredores de trânsito. Motoristas esquecem que trafegam em áreas residenciais: buzinam qualquer hora sem piedade. Perturbam. Para mim, um reflexo direto da má formação do nosso povo. Cidadania é um valor pouco ensinado e pouco aprendido. Quem pode ajudar a mudar esse quadro?     Muito embora o avanço tecnológico, não vemos isso alcançar o trânsito como deveria. Falando em motocicletas, por exemplo, por que Belém tolera a falta de uso de capacete? Por que tolera motos ensurdecedoras? Por que não faz uma campanha de conscientização para essa questão da buzina? Por que durante a noite tudo parece ser permitido no trânsito de Belém, inclusive veículos na contramão até em grandes avenidas?   

 Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 16/11/2021

 E-mail: ruiraiol @gmail. com