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Artigo: “Terra, este grande quebra-cabeça”

Podemos entender a Terra como um grande quebra-cabeça. Seus 510 milhões de quilômetros quadrados podem ser repartidos e estudados com certa independência, mas sobretudo pelo conjunto único que formam.

Tudo está interligado na Terra, seja em sua superfície, seja mergulhando no âmago de seu magma, seja subindo até o limite extremo de sua atmosfera. Nada escapa. Tudo está conectado. Qualquer tentativa de separá-la é mero arranjo, ensaio, conveniência humana.

É curioso olhar o planisfério terrestre e ver sua porção seca recortada entre nações, assumindo cada pedacinho uma cor e um formato diferente. É curioso olhar a tentativa de dividir até os oceanos em milhas “continentais”. As fronteiras políticas tecem linhas geodésicas absurdas. Todas as linhas sobre o globo terrestre são imaginárias, imaginação do homem. Capricho. Vaidade. Conveniência. Nada.

De alguma forma, porém, essas linhas políticas servem para separar e até mesmo segregar povos e raças. Aqui entra em campo a cultura, a língua, o traço etnocêntrico, que sempre há de chocar o vizinho do outro lado. Mas, retiradas fossem as rígidas linhas políticas, eis essas peças se embaralhando, eis povos e raças se misturando como águas que despencam  numa grande represa.

Cada peça deste quebra-cabeça tem formato e outras qualidades próprias, tais como: altitude, solo, relevo, clima e até cor. Podemos imaginar 510 milhões de peças. Por sua vez, cada uma destas pode ser repartida em muitos outros pedaços. Cidades, vilas, bairros, ruas, praças… São micropeças dentro da principal.

A nossa visão de mundo enquanto espaço geográfico nasce desse foco, desse olhar direcionado e, subjetivamente, do significado que damos a cada um desses pedacinhos. É a visão da formiguinha. É assustador saber que a grande mancha de Júpiter é uma tempestade que já dura trezentos anos, grande o suficiente para engolir a Terra.

Sempre que penso nas altas montanhas, concluo que elas são grandes porque nós somos pequenos. Caminhando o homem em um bosque, eis um ser anão sob as árvores. Todas as obras humanas são nanicas. Desde a torre de Babel, é vã a nossa tentativa de “subir aos céus”. Longitude é nada vista do espaço. A muralha da China é a única obra humana capaz de ser vista do alto, vista do ponto mais distante de observação da superfície terrestre. Isso porque é horizontal, latitude.

Cada pedacinho forma um quadro, uma paisagem própria. Ali, o mar é azul. Na Amazônia, os rios são turvos. Aqui, uma cortina de árvores ao fundo. Ali uma parede de montanhas desenha-se além. Latitude, altitude, umidade, vegetação, urbanização, distribuição demográfica, trânsito etc.: elementos que formam nossa visão de conjunto.

Rui Raiol é escritor 

Publicado no jornal O Liberal em 02/11/2021

E-mail: ruiraiol@gmail.com