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Artigo: “O testemunho de 600 mil mortos”

Muitas vozes ecoam no Brasil acerca da presente pandemia de Covid-19. Opiniões. Julgamentos. Pressuposições. Nenhuma, porém, é mais eloquente que o testemunho de mais de meio milhão de brasileiros ceifados por esse vírus.

A morte parece encerrar definitivamente o papel do homem sobre a face da Terra. Na verdade, o mundo é consolidado com grande auxilio dos que já cessaram a respiração. Olhemos à volta, e o que vemos é uma pesada contribuição dos que morreram.

Desde que o mundo existe, vivos tentam calar definitivamente os mortos. Em vão. Já na ocasião do primeiro a ultrapassar esse limite, ceifado, temos o testemunho divino que, rebatendo o esse intento, aponta o sangue de Abel clamando por justiça. Desde então, segue a tentativa fracassada.

Quando examinamos as Escrituras, eis a Terra prestando contas de seus mortos. Eis o grito dos excluídos. Eis o julgamento derradeiro. Não adianta: fosse apenas uma vítima no Brasil, e seu direito “de voz” estaria assegurado. Enquanto isso, os que sobrevivem insistem em interpretar a seu modo o que sobreveio aos que partiram.

Nessa forma imperfeita de opinar, não raro, alguns arvoram-se em atribuir ao falecido a causa do óbito. Teriam sido negligentes. Relapsos. Teimosos. Tinham comorbidades, foi isso! Eram velhos, “deram azar”, e por aí segue a lista. Logo chega a política, artífice em mentir e dissimular, para fazer coro, pois se morrer alguém no território alheio, e uma coisa; se no terreno politico de casa, bem diferente.

É impressionante quanto a morte pode funcionar como moeda política, pode eleger e não. Pode condenar e justificar. Já estou me preparando para assistir a essa infâmia no período eleitoral. Mortos serão a principal moeda das eleições de 2022. Somente o eleitor perspicaz conseguirá enxergar tamanha manipulação sobre esses tristes números.

Mas, o certo mesmo é que os mortos “estão aí” para desdizer mentirosos. Depois de Deus, são eles que de certa forma detêm essa “dicção”. Afinal de contas, a vida é tudo. A experiência de viver jamais será aniquilada. Caberá aos que sobreviverem serem honestos e não levianos. Não podemos nos valer da ausência de ninguém para condená-la, culpando a si ou a outrem inocente pelo infortúnio.

É interessante que a Escritura declare que Deus é Deus de vivos, não de mortos. Neste passo, a boa escatologia aponta para um estado de sobrevivência agora mesmo, existindo uma espécie de cidade celestial que coexiste com o mundo contemporâneo de sete bilhões de pessoas que se movem sobre a superfície da Terra.

Quem viver, verá as próximas eleições. Não dá para ignorar 600 mil mortos, muito menos é razoável atribuir-se cem por cento de culpa a A ou a B, tampouco aos falecidos.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 26/10/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)