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Artigo: “A virtude de reconhecer a inocência alheia”

Conta-se que um rei da Macedônia tinha o costume de tapar um dos ouvidos quando alguém lhe trazia uma acusação contra terceiros. Indagado sobre o hábito, o soberano afirmava que reservava um ouvido para escutar a parte acusada.

Reconhecer a inocência alheia é uma das grandes virtudes do ser humano. Grosso modo, podemos classificar comportamentos como defensivos e acusatórios. Impressionante que até a saga bíblica passa por esse dualismo. De um lado, Jesus, nosso Advogado constituído diante de Deus; do outro, Satanás, o “acusador dos irmãos”. O livro de Jó nasce desse antagonismo.

Estendendo a régua, cada pessoa assume o papel de acusar ou defender. Ao longo do dia, eis nossa ocupação. Todo pensamento é um juízo, uma sentença. Muito embora esta característica fundamental da ideia, quando o pensamento é uma assertiva, o problema nasce quando não permitimos auscultar outras vozes acerca do fato. Nesse momento, taxativos, assumimos de vez o papel de juízes.

No ordenamento jurídico, cabe ao Ministério Público o papel de aplicar corretamente a lei, sendo o promotor o agente público que clama pela inocência ou condenação do acusado. Tarefa árdua. O crime é um fenômeno complexo, não é apenas violação da lei, é fato social também, carregando a conduta final do agente delituoso uma densa carga sociológica.

Todavia, não obstante o delicado papel do Ministério Público em pedir a dicção do direito, bem assim nossa conduta cotidiana de “julgar” tudo através da natureza do pensamento, a virtude de reconhecer a inocência alheia sobressai mesmo quando nós somos a vítima, quando estamos em sofrimento no momento do exercício dessa virtude.

Lendo comportamentos, não encontro nada semelhante à conduta daquele “bom ladrão” crucificado ao lado de Cristo. Ao passo que o outro malfeitor escarnecia do Mestre, sugerindo que este descesse da cruz e salvasse a todos, no meio de dor insuportável, agonia de morte sob um Sol causticante, o homem teve a capacidade de reconhecer os próprios erros e a inocência daquele que sofria da mesma condenação.

Muitas vezes, um leve desconforto já nos torna insensíveis para reconhecer o próprio mundo, a natureza. Uma forte dor de cabeça, e podemos amaldiçoar o dia. Uma ofensa mínima sofrida, e já podemos rogar o dano para os que atravessam o nosso caminho.

A capacidade de reconhecer a inocência alheia que nos exclua do sofrimento é uma das maiores virtudes. Articulando com Deus acerca de Jó, Satanás afirmou que “pele por pele, tudo o homem dará pela sua vida”. Essa é a observação do Acusador, que bem sabe quanto lutamos por nós mesmos, pelo que é nosso, pelo que nos livra da condenação. Esquecia o Maligno da força do caráter do patriarca.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 19/10/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)