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Artigo: “O espaço urbano das ruas”

A rua é um dos principais espaços urbanos, capaz de classificar até mesmo a grandeza das cidades. Da Antiguidade, até hoje algumas ruas são lembradas, a exemplo da Rua Direita, em Damasco, e Via Ápia, dos romanos.

     As ruas são verdadeiros elementos vivos na geografia urbana, nascem, vivem e morrem. Ruas são abertas e fechadas. Ruas são batizadas e rebatizadas, recebendo nomes importantes segundo o olhar da comunidade. Vivendo poucas décadas, cada um de nós já pode perceber que as ruas acompanham a mobilidade do mundo. É assim que o orgulho do nome de uma rua pode cair de repente.

     O nosso olhar sobre as ruas variam de acordo com a nossa própria visão de mundo no momento que a contemplamos. Se turistas, ruas são geralmente mais apreciadas, ao passo que habitantes desses logradouros parecem ter uma escama nos olhos para percebê-las em alguns detalhes. Às vezes, abro a porta de casa apenas para olhar a rua, olhar de perto e ao longe, olhar o alinhamento e a estatura das casas, olhar as árvores e o trânsito. É impressionante a visão que podemos ter.

     Neste contexto, sobressai o papal que as ruas têm para cada um de seus transeuntes, a pé ou não. Ruas podem ser íntimas e estranhas. Ruas podem ser nossas ou de outros. A função que as ruas desempenham tem a vêr diretamente com a nossa necessidade. 

     Se queremos sair de casa, a porta da rua é a serventia, como dizemos. Saindo, eis um mapa urbano diante de nós, onde cada rua parece ter uma feição própria a depender do que procuramos ali. Algumas ruas são para nós simples corredores. São assim as ruas centrais, comerciais e que tenham para nós um papel de nos levar de um lugar para o outro, geralmente rápido.

     Voltando cansado do trabalho, corremos por algumas ruas olhando sempre para frente, como um piloto no mar olha a linha no horizonte. O que importa é chegar logo, a rua é a passagem, o caminho a ser vencido, um tipo de obstáculo urbano que precisamos ultrapassar o quanto antes, pois parece ter sido aberta ali tão somente para nos distanciar de casa. “Maldita Rua!”, “Maldito sinal!”, “Maldito trânsito!”. Essa animosidade pode desaparecer quando entramos na rua de casa, “minha rua”, “minha casa”.

     Mas, as mesmas ruas amaldiçoadas por uns são benditas por outros. A dificuldade está em cada um de nós termos consciência dessa variação de papel. Mesmo estando apressados, precisamos olhar um pouco mais às margens das ruas. Olhar à direita e à esquerda, percebendo o tipo de construção urbana que temos nessas margens. 

     O espaço urbano das ruas precisa ser pensado e repensado por todos, pois enquanto um corre e outro bebe, alguém também quer dormir. Enquanto alguém corre, outro reza, outro canta, outro chora. E isto tudo na mesma rua, no mesmo espaço urbano.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 12/10/2021

e-mail: ruiraiol@gmail.com