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Artigo: “A alma política brasileira”

Eu penso que o coletivo ainda é um dos itens menos estudado e compreendido de um povo. Facetas individuais e de determinados grupos tendem a exercer forte influência na opinião e numa forjada escala de valores que parecem representar o todo de uma nação. Eu penso assim, por exemplo, no que diz respeito a partidos políticos que, no caso de um país pluripartidário como o Brasil, terminam por enganosamente tentar representar o pensamento coletivo de uma nação.

            Eu penso no Brasil enquanto alma política, enquanto um tipo de “ser” vivo, organismo formado diariamente e consolidado ao longo da história nacional. Pensando assim, encontro a gênese de nossa alma na longínqua data do Descobrimento, pois foi a partir daquele dia 22 de abril que o Brasil passou a ser visto pragmaticamente como palco de interesses políticos tais quais nos dominam desde então, um dia que mudou radicalmente toda noção silvícola de governo e pacto social encontrada por Cabral na terra de Vera Cruz.

            Ali, temos o berço de nossa alma política. Nascemos e fomos formados pelos mais diversos interesses extranacionais. À exceção de algum político que olhasse esta terra além do sentido capitalista de “chã” onde “se plantando, tudo dá”, há mais de quinhentos anos sofremos um terrível processo de expropriação de nossas riquezas, onde a política funciona em grande parte como legalização desse mister expropriatório.

            Ao longo dos séculos, o Brasil vive um ciclo de esperança e frustração. A alma política brasileira alimenta-se de êxtases e de raiva, de esperança e de decepção. Gerações como a minha viveram sob o regime militar, onde a “ordem e o progresso” dependiam de uma subserviência ao status quo, onde os brasileiros eram conclamados a amar o país ou deixá-lo.

            Mas, vozes resistentes proclamavam a esperança na restauração da democracia.  As “Diretas Já” foram o grito mais contundente nesse contexto. Aí, Tancredo Neves e Sarney foram os derradeiros filhos do Congresso, devolvendo ao povo o direito de escolher o maioral da Nação. Doravante, porém, o que veremos será uma sucessiva alternação entre brados coletivos de triunfos e de decepção, voltando o povo em pouco tempo às ruas para gritar “Fora, Collor”.

            É assim que uma análise da alma política do povo brasileiro vai encontrá-la uma massa confusa, onde pensamentos de vingança e “basta” à corrupção ganharam a tônica das últimas eleições, terreno fértil ao surgimento de “salvadores da pátria”. Bolsonaro surgiu prometendo fazer uma “nova política”, política nada fisiologista, onde cada agente político trabalhasse apenas pelo seu dever, ótima teoria para um país forjado no calor da corruptibilidade! O resultado todos sabemos.

            Vejo a alma política brasileira, em seu coletivo, em grande confusão, misturando conceitos, cedendo o inegociável, querendo a todo custo encontrar a saúde. Neste contexto, jovens eleitores são os mais perturbados entre a esperança e o medo.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 28/09/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)