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Artigo: “Suméria, onde nasceu a teocracia brasileira”

Foi entre os sumérios, povo de Abraão, em plena Idade do Bronze, cerca de 4.500 antes de Cristo, que nasceu o governo teocrático.

Nos primórdios da civilização que se formou no sul da Mesopotâmia, alguém importante disse ter recebido uma visitação dos deuses, que o instruíam a organizar cidades-estados onde o próprio rei fosse também o sumo-sacerdote da religião do povo.

 Numa jogada de gênio, cidades como Ur, Nipur e Uruk funcionariam sob comando único do monarca. Para justificar o casamento da religião com o estado, a antiga revelação teria assegurado que tais governantes eram escolhidos diretamente pelos deuses, o que, portanto, tornava incontestável seus governos. Tendo recebido tais reis prerrogativas divinas, tinham aura de semidivindades.

Hoje, assistimos, estarrecidos, como a antiga ideia ganhou força no Brasil nos últimos anos. Vemos um casamento perfeito entre a igreja evangélica, que tem na Assembleia de Deus seu principal representante nessa aliança, e o governo. Confundem-se hoje as figuras do pastor e do político. Confundem-se poder espiritual e poder temporal.

Todavia, não obstante o tempo decorrido desde a suposta visitação divina na Mesopotâmia e os nossos dias, a ideia subjacente dali ainda prevalece: a coesão de forças, que, se não pode ser mais materializada em único homem, parte-se em duas, emprestando os pastores brasileiros seus púlpitos e transferindo seus rebanhos aos governantes políticos, ao passo que estes avançam sobre a igreja, numa miscigenação anátema.

Desse modo, opera-se um fenômeno político-religioso capaz de recuperar a força coesiva da antiga fórmula: surge um governo político respaldado “por Deus” (leia-se: pelos seus sacerdotes), surge um pastor com precária autoridade política, autoridade que lhe permite exigir “favores” do estado em troca da “unção” outorgada.

Nesse processo, opera a alienação do rebanho, a perda de consciência própria, passando o grupo a “falar a mesma língua”, diga-se de passagem, a língua do poder dominante: estado e religião. É assim que governantes recuperam a antiga aura de infalibilidade divina, perdendo o rebanho religioso toda noção de senso crítico, motor do livre-arbítrio, valor humano inexistente na congregação do Estado com a Igreja.

Essa união perturbadora enche nossos eventos “religiosos” de figuras políticas, ao mesmo tempo em que leva às ruas o povo de Deus para bradar politicamente por beltrano ou sicrano, semideuses com foros de vitaliciedade, que não admitem sucessor, pois, assim como muitos líderes religiosos, querem “morrer no trono”, jamais abrindo mão das benesses que lhes advêm do ofício.

Desculpem os que discordam de mim, mas tenho na liberdade uma das principais heranças da Reforma. Minha consciência não está à venda, nem meu voto. Admiro o texto bíblico escrito pelo apóstolo Pedro, onde vaticina que nos últimos dias, movidos pela ganância, homens fariam negócio com o rebanho de Deus (2 Pe, 2). Estou avisado.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 31/09/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)