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Artigo: “A contradição do ativismo político evangélico”

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência.” (Romanos, 13.1-5).

Ingressei no segmento evangélico em pleno regime militar. Com os quartéis no poder, a igreja evangélica brasileira era-lhe submissa. Sob a proteção dos militares, evangélicos garantiam a liberdade de crença. Era um momento de expansão das maiores denominações no país. Pelas ruas, igrejas desfilavam ao som de bandas de música, lembrando bem o momento que viviam.

Não obstante notícias de exílios, torturas e outras violações dos direitos humanos, os crentes, através de suas lideranças, mantinham-se calados. Era preciso “respeitar as autoridades” sem questioná-las, pois, conforme nos ensinavam reiteradamente, isto é um mandamento. Na verdade, biblicamente falando, existe espaço sim para a crítica, porém, existe também um limite.

O apóstolo Paulo, que escreve aos crentes de Roma, viveu em período político confuso. Ele foi um exemplo de cidadania quando questionou as violações que sofreu por sua pregação em Filipos. Bateu o pé pela sua cidadania romana. Mesmo liberto do cárcere através de um anjo, ele permaneceu com os pés no chão e só se considerou livre quando magistrados declararam sua liberdade. Em sua defesa, apelou a César, mas terminou decapitado no cárcere, sem merecer um julgamento justo, semelhante ao seu Mestre.

A contradição do ativismo político evangélico resta evidente pela predileção que a comunidade tem hoje pela autoridade do Palácio do Planalto. Numa pragmática insana, o povo é ensinado que nenhuma outra autoridade do Estado presta. Duvida-se de tudo e de todos. De repente, os magistrados do Supremo Tribunal não prestam. Só prestaria o novo ministro indicado pelo Presidente, Mendonça, o atual Advogado-geral da União.

Não obstante, o que não presta é essa ideia que só é bom o que é nosso, só é bom quem pensa como a gente, só é bom quem é do nosso grupo. Essa ideia não presta. A democracia é a mistura do que gostamos ou não. A democracia é a mistura de cores, crenças e diferentes estilos de vida. A democracia é a mistura do hétero e do gay, do rico e do pobre, do crente e do ateu.

A democracia pressupõe tolerância. Não se vai desconstruir o País porque magistrados julgam contra a nossa simpatia. Aos crentes duvidosos, recomendo o capítulo 13 de Romanos.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 24/08/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)