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Artigo: “Nossa visão autóctone de mundo”

Quando Alexandre Magno chegou às fronteiras da Índia depois de anos de conquistas, imaginou haver chegado ao fim do mundo. Segundo uma concepção antiga, o marco do planeta estava nas águas. Em seus limites extremos, derramavam-se em um grande abismo pondo fim à possibilidade de visitação humana. Mas, para surpresa de Alexandre, a terra hindu era um vasto território que transbordava gente e governos.

A visão limitada de Alexandre jamais desapareceu de todo. Cercados pelos elementos que movem a nossa vida mais de perto, geograficamente ou não, somos levados a pensar que o mundo é exatamente a realidade que conhecemos, a única realidade.

Por sua vez, essa visão pessoal é evidenciada em escalas cujos degraus convergem do centro para a periferia. Pensamos mais fácil e concretamente a partir do que experimentamos no dia a dia, sendo esse empirismo importante fator, que se torna mais rarefeito à proporção que nos afastamos do ponto geográfico em que vivemos.

É assim que a nossa visão de mundo pode não ultrapassar as paredes da nossa casa, a extensão do nosso olhar na janela ou do perímetro do bairro. O mundo tende parecer com a nossa realidade. Engano.

Numa ilustração simplória, para cada ponto de caneta que fizermos no mapa-mundi, temos uma nova abóbada celeste diante dos nossos olhos, um novo perímetro, um novo horizonte, um novo “mundo”. Apenas geograficamente considerado, o mundo é tão extenso que nenhum mortal jamais conseguirá tocar cada palmo dos seus 510 milhões de quilômetros quadrados.

A visão de mundo, porém, não é algo apenas físico. Muito mais, essa visão é formada pela forma como interpretamos a ação e inação de todos os agentes do planeta. Família. Política. Religião. Ciência. Filosofia. Uma grande leva de fatores produzem o resultado sobre o modo como o mundo parece a cada um de nós.

Quando examinamos grandes biografias, encontramos nelas quase sempre uma visão em nada autóctone. Muito embora perfeitamente inseridos em seus contextos, vultos importantes sempre espiaram além, sempre procuraram saber o que se passava nos pontos de caneta sobre o mapa que não representavam seus próprios cantos.

Ah, o Brasil! Nossa inserção aqui parece querer nos dizer que o resto do mundo é isto mesmo. Engano! Vivemos uma realidade única, outros vivem pior, mas, também há muita gente vivendo melhor. É assim que muitos dos nossos problemas desapareceriam na Suécia, Noruega, Mônaco. É assim que a nossa política pioraria hoje no Afeganistão.

Precisamos alargar nossa visão de mundo, deixar esse caráter autóctone de alguém que só pensa na própria realidade e acha que o mundo todo é assim. Não é. Clima, política, religião, família, música, dinheiro… Nada adiante é igual à nossa própria experiência.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 17/08/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)