ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Artigo: “O dia que o Boto ficou prenhe”

No presente artigo, quero discutir com humor quanto não estamos preparados para mudanças bruscas de comportamentos sociais.

Reza a lenda que o boto cor-de-rosa sai algumas noites para festas nas comunidades ribeirinhas da Amazônia. Por um toque de transformação quase perfeito, o cetáceo transforma-se em um rapaz alto muito bonito. Trajando elegantemente um terno branco e um chapéu, que esconde suas narinas aquáticas, transforma-se no Boto, figura misteriosa que, para terror dos rapazes do vilarejo, é um camarada bom de dança e de papo.

O Boto dança a noite inteira, dá um show de elegância e cortesia. No final do baile, arrebata a virgem mais bonita da festa para as profundezas das águas para engravidá-la e, por fim, abandoná-la à própria sorte às margens de insólitos rios e igarapés. Quando a barriga cresce e o pai não aparece, todos sabem que a pobre menina tem um filho de boto.

E se o Boto ficasse prenhe? Bem, se o Boto é que ficasse prenhe no final da festa, esta lenda por certo não existiria. Choca-nos a ideia. É assim que vejo quanto a questão do homossexualismo e suas derivações, incluindo a gravidez de “homens” desmonta a nossa cabeça.

Seguindo a lenda, vemos que tudo é perfeito dentro do modelo heterossexual. Desde a tomada de iniciativa até o fim do enredo, o homem é o protagonista. O Boto consegue seduzir, manipular, engravidar e abandonar. Tirando o folclore, faticamente, isto continua acontecendo com a mulher. Mas, onde está o papel feminino nessa lenda?

Eu ouvi uma história muito engraçada. Dona Nazaré, figura amada na família Guedes em Macapá, contou-me que nas margens dos igarapés onde foi criada no Marajó o comportamento de um jovem chamava à atenção. Sempre solitário, o moço desaparecia o dia inteiro.

Inesperadamente, uma enfermidade súbita ceifou a vida do jovem. Agora, enquanto a família chorava o morto, perto da hora do sepultamento, a palafita foi cercada por uma grande quantidade de botos que produziam seus característicos sons, como se chorassem, e só afastaram dali quando o cortejo saiu pelas águas. Lembro-me da estranheza do relato, pois foi-me dito que corria o boato que jovem se relacionava com botos na praia.

É muito difícil para uma sociedade conservadora, ensinada nos valores bíblicos, compreender a homossexualidade. Até o nosso imaginário popular é hétero. Ao mesmo tempo, cada cristão foi ensinado pelo Mestre a não ocupar o papel de juiz. No mundo sempre existirão assuntos que não dominamos, mas não é por isso que os expurgaremos. A lei áurea é o amor. Não estamos preparados para ver o Boto prenhe, mas não é por isto que vamos matar o pobre rapaz.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 10/08/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)