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Artigo: “A sentimentalização do mundo”

As casas, as ruas, o mar, o céu, as flores… nenhuma destas coisas têm sentimentos, pensamentos ou qualquer coisa do gênero, são neutros, existem por si mesmos, sem nenhuma interação cognitiva ou afetiva conosco: somos nós que jogamos sobre eles uma espécie de tapete do nosso emocional, do nosso pensamento.

Sempre pensei na sentimentalização do mundo. Imagine a Terra, milhares de anos de história humana. Para nós, tudo; para o mundo, nada, a começar pela ínfima fração que representa essa história diante dos bilhões de anos de sua existência.

Uma das coisas que mais me impressionam no mundo é o fato de saber que a Terra continuaria existindo mesmo o planeta sofrendo a destruição humana de sua biosfera. Destruído neste milênio, continuaria girando e sendo iluminado pelo Sol ainda por milhões e milhões de anos.

Muito mais neutro é o mundo perante nossa fugaz ação ou omissão. Nossos valores são em parte ficção, fantasia. Certo 7 de Setembro, apanhei um taxista muito melancólico na Praça da República: ele gostaria de estar em lazer com a família, mas faltavam-lhe duzentos reais, precisava seguir trabalhando. E se ele fosse o Neymar? Se tivesse um iate para passear? Pensamos juntos.

Para consolar o motorista, conversei com ele sobre a sentimentalização do mundo, passando pelo direito de propriedade. Afinal de contas, que diferença haveria mesmo entre Neymar e o motorista, caso ambos estivessem passeando naquela hora em alto mar? O vento? As ondas seriam diferentes? A paisagem? Onde estaria mesmo a diferença? Resposta: dentro do emocional e do pensamento de cada um, pois o iate, assim como o mundo inteiro, desconhece direito de propriedade, tristeza ou alegria.

 Depois de algumas décadas de vida, começamos a perceber melhor que o mundo está em perene reconstrução. Casas outrora belas e imponentes vêm ao chão do mesmo jeito que uma choupana. O mundo gira. Tudo muda. Mas, nós emprestamos vida ao que é inerte, damos pensamento ao que não pensa, sentimentalizamos exageradamente o mundo.

É sobre este campo de neutralidade que tecemos nossa história. Sofremos muito por causa de uma casa demolida. Quando eu era criança, eu costumava associar a fachada das casinhas de Vigia com a feição de seus proprietários. Eu criava um vínculo sentimental tão grande com as pessoas da rua que conseguia estabelecer essa relação. Eu era capaz de perceber inclusive traços da personalidade de seus donos em portas e janelas.

Talvez você esteja sofrendo por viver sentimentalizando demais o mundo. Eu disse “demais” porque reconheço ser impossível vivermos totalmente neutros, assim como a matéria que analiso. Não. Todos nos diferenciamos do resto do mundo exatamente por causa desta qualidade peculiar de pensar e sentir. Mas, não é inoportuno refletir se às vezes não exageramos na dose.

Apesar de não podermos deixar de sentimentalizar o mundo, joguemos o nosso tapete com mais cautela.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 29/6/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)