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Artigo:”500 mil mortos e o silêncio dos bons”

Quinhentos mil mortos no Brasil pela pandemia, e o que nos surpreende é o silêncio dos que poderiam gritar neste momento. Há uma cumplicidade de muitos segmentos nacionais com a mortandade que assola o nosso país e ceifou meio milhão de vidas.

O negacionismo político é insano. O governo de Jair Bolsonaro ignora e até debocha de tamanha tragédia. Michel Temer foi cobrado porque demorou intervir na greve dos caminhoneiros, maior estresse do seu governo. Em nenhum momento o Presidente vem a público solidarizar-se com milhões de brasileiros que choram e outros milhões de desempregados e famintos. O discurso da Presidência é sempre ufanista e provocativo.  O modelo atual de democracia serve bem a interesse pessoais. Mas, meio milhão de mortos falam mais que um homem vivo.

Discursando na OMS, o governo afirma aqui que tudo está bem, que a ciência tem razão e que tudo está sendo feito para o bem do povo brasileiro e do mundo, por extensão. Ao contrário desse falso discurso, todos nós sabemos o estado deplorável em que se encontra o Brasil, não só da saúde, mas em muitos outros aspectos, como mencionamos.

Políticos apoiadores do governo calam-se sobre meio milhão de mortos, escondendo alguns que morreram dentro de suas próprias famílias. A fome pelo poder é maior do que a justiça e a verdade para essas criaturas. Nem a morte sensibiliza o mundo político.

O silêncio dos propalados “homens de Deus” também é chocante. Ministros religiosos, que deveriam ser exemplo de solidariedade e compaixão, calam-se para não melindrar Jair Bolsonaro. Agindo assim, contradizem a fé, ignoram o Mestre e tornam-se piores que os mudamos. O silêncio daqueles a quem a Bíblia comissionou a pregação da verdade é inadmissível. A transparência, a revelação e a prestação de contas, elementos fundamentais da fé cristã, são ignorados. Púlpitos praticam discursos vazios e fisiologistas, longe, muito longe dos exemplos e ensinos de Jesus.  

Todos nós sabemos que a tragédia brasileira poderia ter sido contida, se o governo desde o começo tivesse olhado a doença como doença e não politizado o vírus. Tínhamos um excelente ministro da saúde, que acabou demitido pelos seus méritos científicos e coerentes. A partir dali, o Brasil foi entregue à casualidade política, com ministros que não nos parecem deter autonomia para cuidar de assunto tão crucial.

Milhões de evangélicos brasileiros são coniventes e cúmplices desta mortandade. Muitos deles sem consciência do que deixam de fazer, pois, ao misturar-se religião com política, o segmento evangélico brasileiro alienou-se ainda mais, além do próprio efeito da religiosidade, da fé sem discernimento, da crença sem o crivo da razão. Vamos esperar a abertura dos livros de Deus no Dia Final.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 22/06/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)