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Brasil governado pela pavulagem

O uso sensato do poder não é para todos, muitos se perdem entre títulos e aplausos. Convivendo há décadas no meio do poder, eu tenho observado quanto a pavulagem prejudica. Se é verdadeiro que conhecemos uma pessoa quando lhe damos poder, a pavulagem é a exteriorização desse desvio. Quanta gente pávula no mundo! Quanta gente se esconde atrás de códigos de ética classista, que, numa interpretação popular, não passam de manuais de pavulagem.

Era aniversário de uma autoridade na repartição que eu trabalhava, diga-se de passagem, oriunda das brenhas do sertão, sendo eu um dos assessores diretos de dita autoridade, decidi cumprimentá-la. Com naturalidade, abri os braços para desejar-lhe felicidades, mas, para meu espanto, o homem segurou me firmemente pelos pulsos, evitando à força que este mortal encostasse nele. Que homem pávulo!

A pavulagem está em todos os lugares, pode ser encontrada entre doutores e também entre anônimos que viram a cara quando os saudamos no elevador. Tem tanta gente pávula, que eu evito falar com algumas anônimas “celebridades”da pavulagem. Quando eu encontro um sujeito pávulo, rio, porque eu sei que o indivíduo em nada é melhor do que eu, morrendo, logo todos seremos devorados pelos vermes.

Infelizmente, a igreja é um grande espaço da pavulagem. Eu cresci ouvindo minha pobre avó falar das pavulagens na missa. No interior pobre de Vigia, minha avó reclamava da pavulagem das damas da missa, mulheres que exibiam o melhor vestido no culto dominical e ignoravam as mais humildes. Hoje, estando eu afastado há muitos anos do convívio no templo católico, não sei se ali ainda existe pavulagem.

Mas em igrejas evangélicas, a pavulagem existe, sim. Sem dúvida, depois dos ricaços protestantes, sempre fechados em seus grupos sociais, o pastor pode ser o sujeito mais pávulo da igreja. Imagine que alguns sujeitos não entram mais pela porta das ovelhas, mas sobem ao palco através de atalhos, estando vigiados por seguranças o tempo todo. Chegam e saem sem falar com o povo. Quanta pavulagem!

A política é uma máquina de pavulagem por excelência.  Ó classe metida! É certo que existem políticos mortais, como alguns de nós. Mas, o que existe de parlamentar e governante pávulo é de impressionar. Por definição, pavulagem é sinônimo de gabolice, fanfarrice, embuste, exaltação própria. Ai, meu Deus, como o Brasil está sendo governado pela pavulagem!

A pavulagem é insana, sendo capaz de ignorar a própria realidade. Na atual conjuntura, não existe espaço para pavulagem nacional, estadual ou municipal: o Brasil está morrendo. Caminhamos para meio milhão de mortos. Pavulagem é zombaria. Pavulagem é atrair um mérito inexistente, é boçalidade.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 1/6/2021

E-mail: ruiraiol@gmail.com