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Artigo: “A questão atual da Torre de Babel”

Por muito tempo, tenho me questionado por que famílias e amigos separam-se geograficamente. Percebemos que existe um constante movimento de pessoas sobre a face da Terra. Existe uma força centrípeta, que afasta famílias e amigos a partir de seus núcleos primitivos. No filme “Assim caminha a humanidade”, seu autor trabalha indiretamente essa ideia de forma tocante e real.

Mas, afinal, o que está por trás dessa constante migração de pessoas? Conhecemos e convivemos com parentes e amigos que de repente são levados para lugares longínquos, sendo que alguns desses jamais veremos novamente.

Nestes dias, tenho refletido que vivemos ainda o efeito dispersivo da Torre de Babel. Foi ali a gênese desse fenômeno, para os criacionistas e também para historiadores e antropólogos que recepcionam a autoridade da Bíblia enquanto fonte primária de conhecimento, neste aspecto.

Há um constante movimento da humanidade sobre o globo terrestre. Famílias geram filhos com intuito de aumentar o núcleo familiar original, e, assim, garantir pessoas mais perto, porém, a história pode mudar radicalmente. Filhos, como disse alguém, gerados para o mundo, descobrem a porta aberta, saem e desligam-se geograficamente do núcleo. Existe uma certa naturalidade nesta saída, verificada em todo o reino animal. O que investigo é algo além de uma experiência isolada, mas de um movimento constante que parece empurrar as pessoas para longe uma das outras.

No relato da Torre de Babel, edificada após dilúvio, famílias surgem com uma ideia aparentemente inocente de se conservarem juntas na mesma cidade na planície de Sinar. A torre, propriamente dita, era apenas o centro dessa edificação coletiva, o símbolo, possivelmente um zigurate, o centro de um culto daquela comunidade. Ressalto que minha reflexão aqui foge da questão religiosa do monumento, concentrando-me apenas no fenômeno migratório.

Afinal, é a Torre de Babel que explica o deslocamento da humanidade desde então? E, se for, qual o papel que a comunicação tem como força de coesão nos grupos sociais? No caso da torre, sim, a confusão da fala foi que produziu a dispersão. Uma vez que todos já não se entendiam, foi possível notar, ainda, que havia grupos linguísticos próprios, ou seja, a nova língua falada não era um fenômeno isolado, mas um fenômeno coletivo, grupal. Foi assim que a imigração foi operada ali em grupos linguísticos comuns.

Se considerarmos essa distribuição de grupos linguísticos, temos que considerar também que, ainda que no sentido figurado, pessoas se separam quando já não “falam a mesma língua”. Curiosamente, se estudarmos a razão pela qual famílias e amigos se separam, afastando-se territorialmente uns dos outros, ainda que por alguns metros, concluiremos que o fenômeno desta dispersão explica-se pela dificuldade de comunicação entre pessoas, falta de diálogo, falta de perguntas inteligíveis e de respostas plausíveis.

Bem, eu penso que talvez tenha encontrado aqui uma explicação racional e mesmo antropológica para a separação constante de pessoas pelo mundo. Se é verdade, esta explicação pode nos trazer certo lenitivo para questões que afligem a humanidade pelo distanciamento que mantemos uns dos outros. Isto porque estaríamos perante uma lei da própria humanidade, uma condição intrínseca gerada em nós a partir daquela edificação na Babilônia. Geralmente, enquanto agentes passivos do fenômeno, analisamos este a partir da distância que outros empreenderam para nós, ao passo que nós mesmos também nos afastamos, o que nos transforma em sujeitos ativos do fenômeno dispersivo da Torre de Babel.

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 25/05/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)