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Artigo: “O fundamentalismo religioso pró-Israel”

Um considerável número de cristãos entende que deve defender Israel sempre. A razão desse pensamento está numa interpretação rasa da Bíblia. Essa hermenêutica tem o Antigo Testamento como pano de fundo.

Dentre os textos mais citados está o Salmo 122, que conclama literalmente “orai pela paz de Jerusalém”. Reportando a esse imperativo como mandamento cristão, muitos crentes não apenas defendem cegamente Israel, mas, também chegam a odiar os palestinos, tratando-os como inimigos pessoais seus.

A questão de Israel com os povos vizinhos é antiga, nasceu na conquista da Terra Prometida, que, diga-se de passagem, já estava ocupada quando Josué chegou com suas tropas. Uma leitura literal dessas batalhas de conquista são páginas de sangue, pois Israel dizimava tudo: velhos e crianças. Desde então, Israel luta com os seus “irmãos”, cumprindo a profecia intrauterina de Rebeca quando gestou e deu à luz Jacó e Esaú.

Curiosamente, o judeu chamado Jesus não levou a sério as diferenças raciais, políticas e culturais de sua época. Ele tratou nacionais e estrangeiros da mesma forma. Ele reclamou de privilégios que seus contemporâneos judeus invocavam pelo fato de serem filhos de Abraão. No encontro com a mulher de Samaria, Jesus, como sempre, não atentou para a provocação dos “inimigos” mais próximos dos judeus, pois os samaritanos chegavam a dividir a adoração do mesmo Deus dos israelitas.

À luz dos ensinos de Cristo e dos apóstolos, não se deve segregar pessoas por quaisquer motivos. Foi isto que Jesus ensinou no trato com o publicano Zaqueu e tantos outros.

A interpretação do salmo citado como mandamento é um erro grave de seus intérpretes. Primeiro, porque o salmo é uma poesia, em que Davi enaltece a Cidade Santa e o Templo. Trata-se de uma aspiração do escritor. Segundo, e principalmente, porque tais intérpretes ignoram o contexto da Escritura, ignoram uma das regras mais rudimentares de hermenêutica.

Jesus Cristo esteve na sinagoga de Nazaré, ocasião em que lhe deram a tarefa de ler o Antigo Testamento. Na leitura que fez de Isaías 61, versículos 1 e 2, Ele editou a palavra, deixando de citar a parte final do texto, justamente onde está prometido “o dia da vingança” de Deus contra os povos inimigos. Talvez seja essa a explicação do tumulto que se seguiu na sinagoga, tendo Jesus sido conduzido a um despenhadeiro para que, jogado dali, fosse morto por apedrejamento.

Jesus não era sionista. Enquanto os judeus daquela época incluíam várias citações do Templo, de Jerusalém e de Israel em suas orações, quando Jesus ensina seus discípulos a orar ele não faz referência a nenhum desses elementos. O vocativo dessa oração, conhecida como Pai Nosso, não começa pelo “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”, mas, pela palavra “Pai”. Contra o sectarismo, e tendo em vista que o Evangelho é uma mensagem universal, inclusive para os “inimigos”, Jesus, enquanto judeu, pela primeira vez chamou a Deus de “Pai”. 

Igualmente, o centro da adoração, o lugar onde estava a Divindade não era mais Jerusalém nem no Templo, mas, “no Céu”. Desta maneira, Deus deixa de ser um Deus territorial. Deus assume o papel de Altíssimo, pois agora está no Alto, no mais alto lugar acima da Terra. Também, o “reino” invocado nessa oração não é mais um reino terreno, mas, um reino que vem do Céu, portanto, celestial. Para arrematar seu pensamento nessa oração, e não deixar nenhuma dúvida aos seus seguidores de qualquer época, Jesus declarou que já “temos perdoado” os que nos ofendem e condicionou o nosso próprio perdão suplicado ao Pai ao mesmo perdão que já concedemos aos nossos inimigos. 

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 18/05/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)