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Artigo: “A visão impressionista da vida”

Quando o Impressionismo surgiu no século XIX, sua técnica não foi aceita como pintura séria, pois o Romantismo e o Realismo dominavam as principais escolas plásticas. O quadro “Impressão”, de Claude Monet, retratando o nascer do Sol, com pinceladas livres, sem observar o acurado método de luz e sombras dominante, colheu a ironia de seus contemporâneos.

Mas, o Impressionismo nasceu justamente como fuga de métodos dominantes, numa época em que o artista servia para satisfazer o olhar de observadores de suas obras. A perfeição era requerida, porque esse observador buscava na tela uma visão paradisíaca da realidade, chegando alguns autores a retocar seus trabalhos para satisfazer esse protótipo de perfeição.

A vida também requer sua dose de exigência. Se notarmos bem, vivemos em grande parte para agradar um padrão de olhar do mundo. Comportamentos são cobrados. Normas. Preceitos. Ética. Moral. Por este prisma, somos assim um quadro ambulante, exposto a toda hora à aprovação ou reprovação de terceiros.

Porém, o Impressionismo surgiu com uma ideia de libertação do próprio artista. Ele desprezou métodos em voga porque o artista queria representar o que ele próprio enxergava. Muito antes das modernas tecnologias de captar e reproduzir a imagem, Monet lançou na tela o que seus olhos captaram com o seu primeiro olhar, ele reproduziu o que seus olhos viram de relance.

De fato, nenhuma imagem é perfeita à primeira vista. Quando um cavalheiro é atraído por uma dama, ele não a olha só uma vez, o chamado “segundo olhar” é que lhe confirmará o que ele vê, nascendo daí outras percepções. Parafraseando o sábio, parece mesmo que ninguém olha a mesma cena duas vezes, pois o tempo e o espaço mudarão nossa percepção quando voltarmos o olhar

Não é verdade que somos o que dizem sobre nós. Os tabloides da Internet podem apresentar uma visão muito distorcida, para melhor ou não. Não somos uma obra acabada. Mesmo depois de mortos, não somos, porque se não conseguem nos compreender vivos, finda a respiração, jamais. Somos uma sequência de flashes. Apesar do esforço dos melhores biógrafos, ninguém pode saber quem de fato somos. A luz que dá vida a esta tela está dentro de nós. Somente nós mesmos sabemos quem somos.

O esforço de viver para “parecer bem na foto” a outros pode nos adoecer. Acho que as mídias sociais são academias desse esforço mental. Todo mundo quer ser lindo na microtela. Filtros poderosos conseguem nos rejuvenescer décadas. Inútil. Isso é uma vã tentativa de continuar pintando um retrato para agradar a outros com uma falsa imagem.

O quadro de Monet, de 1872, mostra um porto verdadeiro, aparentemente desfocado. A preocupação não está com frequentadores de museus. O artista francês tirou um momento para expressar o que ele era, o que ele via. Assim, quem quiser ir ao museu da nossa vida, quem quiser nos conhecer de verdade, prepare-se para tentar ver o que vemos. Tentar.

Rui Raiol é escritor.
Publicado no jornal O Liberal em 11/05/2021
www.ruiraiol.com.br