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Artigo: “Profetas e sacerdotes do mundo”

As figuras do sacerdote e do profeta existem antes mesmo da religião. Mas, é a partir desta que alcançamos uma compreensão mais profunda sobre o trabalho desses dois seres humanos. A partir da experiência do judaísmo, eu vou conversar com você sobre este tema hoje.

Na literatura judaica, Deus é o primeiro profeta. Em Gênesis 3.15, é o Todo poderoso quem vaticina que da “semente da mulher” nasceria um que esmagaria a cabeça da “serpente”. Deus referia-se ao aparecimento do Messias e sua mensagem de resgate da criatura humana decaída no Éden.

Já nesse primeiro momento, o profeta Deus exerce plena liberdade para dizer o que pensa e vaticinar o que bem quer. Depois, o judaísmo apresenta a misteriosa figura de Melquisedeque, sacerdote em Salém. Aqui, já vemos certo cerimonial, existem dízimos e bênçãos. Não é de qualquer forma que Abraão aparece em cena com seu nobre interlocutor.

Mas é com passar dos séculos que a diferença entre os ofícios de sacerdote e profeta evidencia-se dentro do judaísmo. Depois do ingresso na Palestina, não demorou muito para que a frágil espiritualidade de Israel daquela época expusesse tal diferença. A religião, enquanto serviço do templo e da prática diária de alguns grupos esfriou, miscigenou-se com outras crenças, outros altares. É neste momento de caos do desafiador povo que ousara viver o monoteísmo que importantes profetas surgem no cenário, a exemplo do intrépido Elias em seu confronto com o culto liderado por Acabe, rei de Israel.

Desde aqueles tempos imemoriais, sacerdotes podem servir de aparência durante toda a vida. Sacerdotes não precisavam e continuam não precisando dizer muito, basta seguirem o script, o folhetim dominical. Por favor, compreenda “sacerdote“, aqui, enquanto um ministro de altar, um ritualista exclusivo. Não confundir o cargo eclesiástico com a vocação, pois nem sempre são a mesma coisa. Aqui me lembro de Girolamo Savonarola, que, tendo o ofício de “leitor” na igreja de São Marcos, Itália, durante a Idade Média, foi certamente um profeta. 

Ao contrário dos sacerdotes, o profeta precisa entregar uma mensagem de Deus, doa a quem doer. Logo lembramos de João Batista que, literalmente, perdeu a cabeça pela fidelidade ao vaticínio. Profetas não têm muitos amigos. Profetas não estão no mundo para agradar o mundo. Profetas não estão preocupados em palácios. Profetas são a voz imparcial de Deus na Terra. 

Curiosamente, os ofícios de sacerdote e de profeta são encontrados na sociedade de um modo geral. Assim quanto na religião, o mundo vive de homens que governam por governar e de outros que clamam por uma sociedade justa. O mundo tem pessoas acomodadas, satisfeitas com o seu quinhão e nada interessadas no bem-estar de outrem, ao passo que existem vozes que reverberam em prol de quem sofre pelo mal ofício do “sacerdote“ religioso, político, social etc. É assim que defino Chico Mendes. Para mim, foi um profeta social cujo sentido de sua vida estava em apregoar as mazelas do capitalismo selvagem vivenciado nas florestas do Acre de toda a Amazônia.

Ai da Igreja se não fossem os profetas! Ai do mundo se ousadas vozes se calassem de vez na sociedade.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 27/04/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)