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artigo: “Deus na vida de ateus”

Em seu espetacular livro “O Fator Melquisedeque”, Dom Richardson (1935-2018) investiga vestígios do Deus verdadeiro na crença de culturas diversas sobre a superfície da Terra. Partindo do altar ao “Deus desconhecido”, que o apóstolo Paulo encontrou erguido em Atenas, Richardson faz um verdadeiro trabalho de antropologia bíblica.

Ao longo dos anos, tenho procurado identificar também a “presença” de Deus em vários segmentos sociais. Faço um estudo do ordenamento jurídico pelo mundo e vejo Deus em grande parte desse direito comparado. Assisto a documentários sobre a considerada cultura pagã da Índia e, sem ficar chocado no meu etnocentrismo, vislumbro aqui e ali a crença verdadeira de Deus no meio de tantos rituais estranhos ao Ocidente. É assim também que encontro o Decálogo presente em praticamente todos os códigos penais e civis do mundo.

Mas é quando refino essa observação que fico mais admirado. Eu consigo enxergar os mandamentos de Deus e os valores do Evangelho sendo reverenciados até mesmo pelos que se proclamam ateus. Eu sei que leitores de superfície terão muita dificuldade para compreender o que escrevo agora. Para isto, precisamos de lentes poderosas, capazes de superar nossa condicionada capacidade de enxergar a partir da nossa própria luz. Não é tarefa fácil, reconheço, mas não desistimos de pensar e de compartilhar a visão.

O casamento é um dos temas onde posso garimpar os mandamentos divinos entre ateus que vivem bem a relação a dois. Não raro, sou procurado a aconselhar cônjuges cristãos à beira do desespero. Casados com pessoas da mesma fé, alguns deles descobriram depois que a verdade não existia além da vista do outro. A infidelidade entre os que se confessam cristãos ainda é recorrente.

Geralmente, meus interlocutores apresentam uma elevada percentagem de espiritualização do matrimônio. Tenho recebido pessoas que ainda acreditam que o adultério do cônjuge foi obra do Diabo e que a reconciliação de quem até já assumiu nova vida depende de um esforço divino de “libertar” e trazer o outro à força pelo poder da oração. Olhem, eu creio muito em Deus e procuro viver em oração, mas desconheço esse perfil divino. Não é demais dizer que alguns cristãos ainda oram sem a consciência de que Deus é o Ser mais inteligente.

Eu vejo Deus na vida dos que se declaram ateus quando estes são pessoas que prezam pela verdade, a base praticamente de todo mandamento divino. Eles são fiéis aos seus cônjuges, não obstante nem sempre observem a formalidade ritualística do matrimônio. Eu tenho plena consciência, por exemplo, que o casamento tal como concebemos, com proclamas e papeladas, não passa de um arranjo humano. À vista de Deus, é casada toda pessoa que vive em padrão de fidelidade e reciprocidade com o seu par. E nisto vejo Deus presente na vida de quem “vive junto”, ao passo que não vislumbro nada da Divindade entre cristãos que, não obstante casados perante os homens, vivem um inferno da Terra dentro de casa.

Eu procuro pessoas de valor. Vejo Deus em Sócrates. Vejo Deus em Mahatma Gandhi. Vejo Deus em Mandela. É isto que procuro também em candidatos políticos. Não me interessa eleger um presidente intitulado cristão cujo testemunho afronte ao próprio Cristo. Sempre estive disposto a votar em um presidente ateu, desde que encontre neste a coerência e o respeito pela pessoa humana. Eu vejo Deus na vida de um ateu que, mesmo sem confessar a fé cristocêntrica, pauta sua conduta nos valores universais de Cristo.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 20/04/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)