ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Artigo “O Tempo e a Nossa Autoimagem”

Nasci em uma casa muito pobre. Casa toda de barro, paredes, chão e teto. Sem luz e água encanada. Ali não havia móveis. O único espelho da casa era uma relíquia que minha avó guardava muito bem sobre uma elevada tabuinha-toucador na parede do quarto.

Mesmo com essa dificuldade, eu gravei minha imagem bem cedo. Eu aproveitava visitas à casa de parentes para olhar como eu era mesmo. É por isso que não tenho dificuldade em compreender o que Tiago escreveu em sua bíblica “epístola de fogo”, ao afirmar que ouvintes, e não praticantes da Palavra, assemelham-se ao varão que contempla o seu rosto natural no espelho e depois logo esquece.

Nos tempos do Antigo Testamento, espelhos eram ainda mais raros. Feitos de latão ou bronze polido, somente famílias abastadas podiam tê-los em casa. À minha semelhança, visitantes aproveitavam a ocasião para darem uma espiadinha na própria imagem, mas, a memória roubava-lhes logo de alguns detalhes pessoais. Bem, de alguma forma, todos nós gravamos a nossa imagem desde cedo. Hoje, quero refletir com você sobre como lidamos com a nossa memória fotográfica, nossa autoimagem.

Eu fico impressionado com essa memória. Vejo que podemos ter dificuldade para reconhecer a própria imagem com o decurso dos anos. Particularmente, minha imagem ficou muito bem guardada. Não tenho problemas em perceber as variações que o tempo produz nas demais pessoas. Não. Olho, e de pronto posso perceber que alguém está mais claro, mais escuro, mais gordo, mais magro, mais novo, mais velho. O problema está com a minha autoimagem.

Parece-me que podemos ter séria dificuldade com a nossa imagem armazenada. Eu atribuo isto a uma relativa falta natural de senso crítico que a autoimagem produz. Diferente de terceiros, olhamos nosso rosto todos os dias, algumas ou até muitas vezes por dia. Nosso cérebro não parece ter a capacidade de filtrar com perfeição as diferenças encontradas hoje. Temos uma imagem arquivada que parece não querer se despedir de outros autorretratos. Mas, não é só isto.

Eu penso que, além dessa dificuldade plástica da nossa memória, temos outros dados arquivados cuja natureza está muito além do que pode ser percebido pelo olhar. Nossa autoimagem arquivada tem muitos anexos emocionais. Personalidade. Pensamento. Valores pessoais. Olhamos para o nosso rosto, e um turbilhão de memórias não pictóricas afluem instantaneamente. Olho para mim, e, de relance, passeio rapidamente por todas as fases da minha vida, desde que aquele menino se viu pela primeira vez em um pequeno espelho de moldura laranja.

Do ponto de vista de alguns valores, senso crítico e pensamento, guardo comigo muitas coisas de menino. É assim que, aos seis anos, enquanto caminhava pelas tranquilas ruas de Vigia de outrora, eu já contava quantos anos faltavam para eu ingressar na faculdade. Eu tenho uma visão de mundo que nasceu comigo. Eu cresci, amadureci, porém, sou a mesma pessoa desde que tenho consciência da minha existência no mundo. Como lidar com mudanças na minha imagem? Nada fácil.

Confesso que me sinto tão criança quanto aos meus seis anos. Confesso que me sinto tão jovem quanto aos dezoito. Confesso que a maturidade é um valor relativamente estranho, sendo o envelhecer um fenômeno muitíssimo esquisito para eu compreender, porquanto meu homem interior jamais envelhece. Bem, é isso. Não sei qual a sua experiência. Quero terminar hoje com um breve pensamento: a distância entre duas pessoas são dois pontos de vista. O resto são paralelas e perpendiculares. Qual o seu olhar?

Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal em 13/04/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)