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Trânsito, antropologia e crime

O trânsito caótico de muitas cidades brasileiras contém um elemento adicional que não podemos ignorar: o movimento do crime. Pelas mesmas ruas onde se caminha pensando na paz, outros maquinam a ilicitude.

Antropologicamente, o trânsito é o espaço em movimento de todas as pessoas que convivem em determinada faixa da superfície terrestre, incluindo o espaço ocupado pelas águas. Assim, o trânsito deixa de ser mais do que movimento para ser caracterizado como um fenômeno complexo. Se cada pessoa é compreendida como um universo à parte em matéria de individualização, o trânsito é o que existe de mais complicado em matéria de ajuntamento humano.

Existe uma parte de infraestrutura no trânsito, representada pela malha de locomoção de pessoas e veículos. Existe um lado gerencial no trânsito, que diz respeito ao papel do estado em disciplinar a melhor forma de aproveitamento desse espaço de circulação. Porém, existe ainda, e principalmente, a conduta humana nesse meio de grande interação social, a maior todas as interações humanas, penso.

Logo, não podemos pensar em trânsito como espaço único de pessoas de bem, segundo a nossa ótica. O trânsito é de todos, daí o cuidado. Cotidianamente, lemos de crimes executados em plena via pública, por meio de veículos cujo alvo pode ser também uma pessoa motorizada. É neste aspecto que o trânsito merece uma atenção cuidadosa de todos, entes públicos e sociedade.

Você vê alguém em alta velocidade vindo em sua direção. Tenha calma! Você não sabe o que se passa no interior daquele veículo, tampouco no interior da cabeça do motorista. Pode ser uma questão de emergência na saúde de alguém. Pode ser uma porfia. Pode ser uma demonstração da potência do motor. Pode ser muita coisa, inclusive uma manifestação do crime. Veículos em fuga de delitos não tocam sirene, não têm placa especial e às vezes nem placa mesmo. Saia da frente quanto antes!

Precisamos de tranquilidade para dirigir em muitas cidades brasileiras, a cena é de guerra. O germe da corrupção atingiu os usuários do trânsito. De repente, tem muita gente com desejo de transgredir as normas de trânsito. Motos ziguezagueiam. Algumas utilizam ciclovias e andam na contramão. Bicicletas não respeitam faixas de pedestres. Alguns de seus usuários querem ser tratados como motoristas, porém, não sabem parar quando o sinal fecha para eles. Cuidado!

O perigo vem de toda parte no trânsito. Vem do próprio trânsito caótico, com vias intrafegáveis e sem a mínima sinalização. Vem, ainda, do espaço de crime que representa, como leito natural de movimento da sociedade, pois todos têm o direito de utilizar as ruas, são vias públicas por excelência, guardiãs do sagrado direito de ir e vir.

Para combater o crime, a polícia precisa sair às ruas, sem isto a investigação para, cessa o necessário trabalho ostensivo, para a corrida de encalço e, com isto, desaparecem muitos flagrantes. Então, o crime traz outro elemento ao trânsito já bastante complicado. A polícia vem para cumprir o seu dever, mas necessariamente precisa circular pelo meio do povo, sem distinguir classes sociais.

A movimentação policial não deixa de ser perigosa. É um mal necessário que mergulha nesse caldeirão de tantas emoções e sentimentos nas ruas. Os Estados Unidos são famosos pela perseguição em alta velocidade. Aqui no Brasil, nem tanto. Nossa polícia padece de boas condições de trabalho. Correr muito é perigoso para todos, risco dobrado neste Brasil. Não obstante, a polícia precisa encontrar um jeito de continuar trabalhando.

É assim que o nosso trânsito é campeão de mortes, não apenas pelo simples fenômeno de locomoção no espaço. Campeão também pelas mortes nesse espaço antropológico, como retrato fiel da sociedade, porque o trânsito é o que melhor expõe o que se passa na mente e no coração de um povo, é o que bem retrata a educação e o respeito.

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br