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Morrem um milhão de brasileiros

O Brasil é uma nação que sofre de violência endêmica. Aqui, a vida parece não valer nada. Morre o cidadão de bem, morrem acusados sem julgamento, morrem profissionais comprometidos com o seu ofício. Uma carnificina!

                Estamos tão acostumados com a morte violenta que isto parece normal. Morram cinco ou dez por dia, e será estatística despercebida por muitos, será matéria de jornal tão indispensável quanto o futebol. Aliás, caderno policial é uma das páginas mais lidas no Brasil, seja no papel ou no vídeo. Tão lida mesmo quanto o futebol, com a busca de informações detalhadas e fotos marcantes, aliás, o Brasil já avançou muito pouco sobre essa segunda forma de violência, que é a exposição da morte. Para equiparar essas duas matérias, só falta mesmo o sonho de melhoria e prognósticos de vitórias, algo restrito ao mundo do futebol. As páginas policiais são lidas quanto dissertação e narrativa, nada de esperança. Falta ao povo aquele afã de mudança desse quadro sombrio.

A morte violenta tornou-se artigo de cultura popular. Quando os jornais chegam Brasil afora, muitos leitores procuram apenas três itens: sexo, futebol e morte. É impressionante! O sexo está diluído em várias páginas, passando pelos reality-shows, novelas e aparições de modelos. O esporte e o crime têm cadernos exclusivos. E o que mais deixa qualquer um intrigado é ver como a violência tornou-se uma leitura obrigatória quase hedonista. A sociedade brasileira caminha neste sentido macabro. Hoje, as telenovelas disparam na liderança quando o enredo envolve surras e mortes. A violência que nos consome virou entretenimento. Loucura!

Sempre lembro da experiência de Izael Marinho, um amigo que morou muitos anos na França. Ele passou muito tempo para ouvir falar de mortes violentas ali, destas que enchem os nossos jornais, quase sempre por motivos torpe ou fútil, pois aqui alguém pode ser morto até por causa de um cuspe. De volta ao Brasil, agora com seus filhos adolescentes, a primeira cena de violência ocorreu diante da casa onde morava a família de Izael, em Macapá, um homicídio que o forçou a levar a família para um interior mais sossegado. Teve sorte de encontrar, porque interior é hoje um lugar igualmente perigoso. Visitando minha mãe na estrada de Vigia, costumo atualizar o obituário: morte, morte e morte. Se alguém escapa do trânsito, nem sempre tem a mesma sorte nas mãos de delinquentes.

Fico pensando quanto nossas instituições são coniventes com esse estado de coisa. Afora todo o trabalho do Estado e de órgãos como OAB, Ministério Público, Polícia e a sociedade civil organizada como um todo, parece-me que estamos ainda acostumados com a situação. Imagino que a mortandade que vivemos é suficientemente grave para provocar um chamamento de toda a sociedade organizada, sob a liderança do Estado. É preciso repensar normas penais, a situação dos presídios, mas, principalmente, trabalhar a profilaxia do crime. Sergio Moro vai ter muito trabalho.

Cerca de um milhão e trezentos mil brasileiros perderam a vida nos últimos trinta anos: uma desgraça, uma catástrofe nacional muito pior do que a guerra. Não nos conformemos com essa estatística macabra. Disto depende a segurança também da nossa própria família, de nossos filhos e netos. A média anual agora é de cinquenta mil assassinatos por ano, o que aumentará aquela cifra terrível.

O Brasil precisa investir na educação, trabalhar o valor da vida a partir da sala de aula. A repressão é importante, mas não eficaz. Precisamos trabalhar a base do novo povo, lutar para inverter essa ideia de que é melhor tirar proveito próprio. Precisamos lutar pelo social. Se tantos grupos utilizam hoje a mídia para criar e fortalecer grupos discutíveis, por que o governo não investe nessa ferramenta? Por que não lança uma campanha permanente de combate à violência, criando, por exemplo, um espaço coletivo nas comunidades para discutir e adotar estratégias de paz?

E ninguém justifique a violência brasileira por uma ótica teológico-apocalíptica. Não. Isto só seria admissível se o mundo todo vivesse assim. Mas esta não é a realidade da Suécia, da Noruega e de outras nações. Que o mundo vai acabar um dia, vai. Agora: por que os sinais desse fato só acontecem esparsamente? Por que acometem principalmente o Brasil e outros países do Terceiro Mundo? Para mim, trata-se de uma realidade social que pode ser mudada a partir de um trabalho sério do novo governo, sociedade civil e todos nós.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)