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Deus absoluto, natureza inocente

Desde que o homem pensa, Deus é o fato mais comentado debaixo do céu. Seja por uma proclamada revelação da Divindade, seja pela mais absoluta falta de comunicação criticada pelo homem, Deus é o tema áureo, o centro da atenção, o foco de quem jamais se cansa de olhar para o alto.

Deus é o ser mais amado e mais odiado. Ele é invocado para explicar assuntos celestiais e terrenos. Ele parece ter o dever de garantir a nossa felicidade e deve assumir também a culpa dos nossos fracassos.  Se ganhamos, graças a Deus! Se perdemos, onde estava Deus nessa hora? Falando sobre esta cobrança, li com estupefação o artigo de Mariliz Pereira Jorge, “Por onde anda Deus quando um padre estupra uma criança?”, publicado na Folha de São Paulo em 21 de agosto deste ano.

Se você notar direito, verá que a figura de Deus está na base de grande parte das catástrofes humanas. Deus era um varão de guerra na Antiguidade. A história dos povos orientais explica-se pelo fator religioso. Na Idade Média, Deus assumia cada vez mais a nacionalidade teocrática de judeus, muçulmanos e cristãos. Nas mãos da Igreja Católica, “Deus” queimou mulheres e homens na fogueira da Inquisição. Milhares e milhares foram dizimados nas Cruzadas.

Jerusalém sempre esteve no centro dessa discussão. A ideia de fazer aliança com Israel em detrimento dos palestinos é releitura de um jornal que circula desde os tempos de Davi e Salomão. Bolsonaro não está criando nada, nem Donald Trump. Essa ideia de remover suas embaixadas de Tel Aviv faz parte desse olhar para o alto que sempre dirigiu ou, pelo menos, incomoda o mundo desde que o olhar do primeiro homem não pôde alcançar o final da abóboda celeste.

Respondendo a indagação de Mariliz sobre onde anda Deus quando um padre estupra uma criança, podemos afirmar, com certeza, que Deus estava no exato lugar e condição espiritual em que sempre se encontrou. É muito interessante pensarmos que Deus é um Ser absoluto, inamovível, intocável, imutável. Deus é exatamente o nosso oposto, neste aspecto. O mundo inteiro pode crer em Deus, ele permanece exatamente igual. Nada, absolutamente nada é capaz de modificá-lo. Toda a humanidade pode rejeitá-lo, Deus não sofrerá nenhum dano por isso. O mundo inteiro pode reunir-se para bradar contra a Divindade, e ele permanecerá imutável.

A história das religiões é a história das nossas diferenças, diferenças humanas, muito pouco a ver com a pessoa de Deus. Na verdade, cada geração que vem ao mundo continua deslumbrada com esse olhar para o alto. Milênios depois, e cada homem que chega revive a história dos primeiros habitantes da Terra. Neste prisma, os livros sagrados contêm registros claros dessa dificuldade que temos de lidar com assuntos que remetem cem por cento ao conceito de espírito e de eternidade. Muito do que está escrito não se explica em Deus, mas na história, seja pessoal ou coletiva de quem escreveu o texto.

Para facilitar esta compreensão sobre a grande distância que nos separa de Deus, no tocante a influência, sentimentos etc., temos a natureza, a Terra e, em linhas mais longas, o próprio Universo. Sempre aprecio, por exemplo, o poder da chuva, como ela é capaz de modificar a nossa agenda, até nos aborrecendo, ao passo que ela é zero emoção.

A natureza é uma miniatura de Deus, no sentido em que escrevo. Não é imutável, podendo responder em parte de acordo com o nosso comportamento na administração do ecossistema, por exemplo. Todavia, esteja cem por cento íntegra ou completamente devastada pela ação humana, a natureza não sente ódio nem amor. Podemos poetizar sobre as ondas do mar ou filosofar debaixo de um céu estrelado, a natureza desconhece poesia, pelo menos segundo o nosso modelo literário.

A história do homem passa-se sobre o mundo, mas este mundo ignora se somos ricos ou pobres, velhos ou jovens. Quando olho o quintal de casa, eu sei que isso não é meu. Na verdade, o que enxergo é uma minúscula fatia do planeta Terra, nada mais. A natureza desconhece noções de propriedade. Desconhece ódio, amor e frustração. Desconhece inveja, usura e vaidade. O mundo segue seu curso enquanto alguns o vão chamando de “meu”. No fim, a natureza, palco de nossas vaidades, não abona nem desabona nossas condutas. Indiferente. No fim, Deus continua sendo o mesmo Deus que existe antes de o Universo nascer, não pode ser modificado. Deus absoluto, natureza inocente. Lembremos disto antes de brigar uns com os outros.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)