ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Agora, é Bolsonaro

A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República quebrou muitos paradigmas. Com pouco mais de um milhão de reais, a campanha seguiu na contramão de tudo que já tínhamos visto em matéria de eleição. Henrique Meireles gastou um bocado da sua fortuna pessoal para tentar a vaga. PSDB contava com o maior reduto eleitoral do País e com o peso da história de quem teve Fernando Henrique Cardoso por oito anos no Planalto. Finalmente, o Partido dos Trabalhadores lutou até o fim para reaver o poder, porém, não foi desta vez.

Bolsonaro não usou o espaço oficial de televisão. Passou quase toda a campanha no hospital e depois se restabelecendo em casa. Acabou com a figura do debate. Todavia, mesmo sem marketing, o novo presidente veio para provar que vivemos outro tempo, onde a grande comunicação no País não é mais alguma coisa centrada na mão de alguns, porém, está pulverizada em milhões e milhões de mãos, dispostas a acusar e defender. Nada será igual doravante em matéria de campanha eleitoral.

Agora, é preciso entendermos que todos dependemos de um bom governo de Bolsonaro. Desejar-lhe boa sorte, como fez Fernando Haddad, é o mínimo que podemos fazer. Não é racional “torcer contra” ele. Fazer isto implica desejar o mal para nós mesmos, porquanto tudo que pudesse sobrevir de ruim ao Brasil haveria de nos tocar de alguma forma.

Não existe essa coisa de governo paralelo. A ideia lançada pelo PT antes de Lula sagrar-se vitorioso nas urnas é um discurso desprovido de eficácia. Ninguém nunca “governou” estando fora do governo. Lembro que em certo estado um candidato derrotado tentou fazer isso, mas, foi impedido. Ele compareceu a um órgão público – uma escola, parece-me – para provê-la dos aparelhos de ar condicionado que dizia faltar, todavia, foi barrado na portaria. Mesmo para receber uma doação, o governo tem de autuar um processo e analisar a legalidade, a conveniência e a oportunidade do gesto. Nada entra e nada sai do patrimônio público sem uma decisão administrativa devidamente fundamentada.

Os mais de quarenta milhões de eleitores de Fernando Haddad agora serão governados por Jair Bolsonaro. Não existe esse negócio de fazer oposição ao que ainda nem começou. Em toda democracia, concorrentes precisam compreender que o processo eleitoral encerra-se com a eleição, diplomação e consequente posse do candidato. Depois disto, cada um volte-se para o seu mitiè. O processo eleitoral é uno, ele não gera dois governos. Para que a escolha seja definitiva e dê chance ampla ao povo de escolher é que existe o segundo turno.

Todos nós devemos nos unir a Jair Bolsonaro. E, se porventura ele ousar alguma manobra ilegal, esperamos que nossas instituições estejam bastante amadurecidas para colocá-lo novamente nos trilhos, pois um presidente pode muito, mas não pode tudo. Sempre foi assim com todos os presidentes. O controle da gestão pública federal, tecnicamente, está a cargo do Tribunal de Contas da União. Politicamente, esse controle pertence ao Congresso. Judicialmente, ao Supremo Tribunal Federal. Tem muita gente constitucionalmente autorizada para fiscalizar Jair Bolsonaro. Quanto a nós, deixemos ele provar o “discurso da vitória”, que fez logo depois que matematicamente foi declarado eleito.

Parte desse discurso acenou para uma nova forma de governar, na verdade, um modelo sem precedentes no mundo, até onde conheço. Bolsonaro quer governar com o Congresso, porém, quer trabalhar contra os intermediários do poder, parlamentares que aprovam e desaprovam somente mediante um “plus” parlamentar. A ideia de Bolsonaro é colocar o dinheiro diretamente nas contas dos estados e municípios. Parece-me este o seu maior desafio.

Estariam todos os parlamentares a favor dessa ideia bolsonarista de “esvaziar” Brasília e valorizar o Brasil? Se isto acontecer, teoricamente estados e municípios seriam mais valorizados pelos parlamentares, posto que estariam mais em contato com governadores e prefeitos e com o povo. Esperamos, contudo, que o eixo da corrupção não apenas desça do Planalto, o que seria péssimo e ainda mais fora do controle do poder central, pois praticamente tudo que temos hoje de processamento da matéria corrupção encontra-se na esfera federal e geograficamente localizado em Brasília e raros polos da Justiça Federal pelos estados.

Oremos e torçamos por Jair Bolsonaro, pois almejamos que seu mandato termine com o mesmo espírito de gratidão a Deus e esperança com que se dirigiu à Nação no último domingo.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)