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Fogo debaixo da cama

A imagem de vulcões ativos é algo aterrador. Aventureiros percorrem
caminhos perigosos para espiar de longe um caldeirão de lavas em
ebulição dentro de profundas crateras. O que muitos não percebem é que
existe fogo debaixo da nossa cama.
Estudando vulcões, a ciência descobriu que existe uma certa
interligação entre essas montanhas fumegantes. Na verdade, a erupção
aqui e ali seria uma espécie de “respiração” desse mundo submerso
incandescente. Os vulcões nasceriam do rompimento da crosta terrestre,
que, aproveitando uma falha geológica, subiriam à superfície do
planeta para dar uma espiada caliente na nossa vida.
O estudo científico pode estar certo quanto à existência de uma rede
de vulcões, afinal de contas, todos nós estamos andando sobre o fogo.
Com um diâmetro perto de 13 mil quilômetros na linha do Equador, a
temperatura da Terra esfria àproporção que subimos da superfície,
enquanto aumenta cerca de três graus célsius para cada cem metros que
descemos ao centro do planeta.
Quando olho o mundo, não vejo nada além de um planeta suspenso no
espaço. Nossas construções sobre a Terra constituem uma paisagem
estranha, o que é facilmente perceptível quando observamos materiais
empregados e formas que desenhamos sobre algo que no passado foi
perfeitamente concluído.
A ganância do homem, a fome pelo poder e pelo dinheiro rouba-lhe a
capacidade de enxergar o óbvio. Agora, no Brasil, vemos mansões de
luxo serem levadas à hasta pública como forma de compensar o que dizem
ter sido roubado do País. Com um olhar materialista e completamente
dissociado da verdade biológica de seus próprios corpos e da verdade
geológica do mundo em que vivemos, assistimos diariamente a multidões
correrem atrás do vil metal.
Mas, existe fogo debaixo da cama. Aqui, na faixa equatorial, o raio
terrestre é de aproximadamente 6.300 km. Isto significa que, se
escavássemos a nossa cama agora, logo logo sentiríamos saudades dos
costumeiros 30 graus que exorcizamos ainda pela manhã nesta zona
tórrida da Terra. Por fim, alcançaríamos o núcleo do mundo, com seus
6.000 graus célsius, um pouco mais quente que a superfície do Sol,
onde a expressão “fogo” soa ainda fria para descrever a nossa
realidade terrena.
Mas, a pergunta é: quantos de nós temos consciência da nossa breve
estada neste mundo? Pedro, o apóstolo que muito entendia de água,
lançou uma profecia sobre os dias derradeiros do nosso planeta. Ele
disse que “os céus e a terra se reservam como tesouro e se guardam
para o fogo”, onde “os céus passarão com grande estrondo, e os
elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se
queimarão”. Interessante que nem mesmo a igreja cristã parece
acreditar nisto.
Existe fogo debaixo da cama, da cama do pobre e do rico, fogo debaixo
da cama do religioso leigo e do rico clero. Existe fogo debaixo dos
altares, debaixo dos pés dos romeiros, debaixo das catedrais que
pregam e daquelas que não pregam mais o Evangelho. Esse fogo é algo
natural, não sabemos se será o fósforo da aterradora profecia petrina.
É impressionante a ciência concluir que o futuro da Terra está ligado
ao fogo, de um jeito ou de outro, pois, escapando da sua autorreserva
destrutiva, uma crescente aproximação do planeta em relação ao Sol
assinalará o seu fim. Nada subsistirá a essa aproximação.
Numa escala crescente, os seres vivos seriam os primeiros a ser
extintos. Justamente o homem, que hoje detém a capacidade de conhecer
o que se passa no centro da Terra – lembrando Júlio Verne – seria um
dos primeiros a desocupar o terreno, que, aliás, muito desarrumou.
Depois, paulatinamente, o mundo seria destruído. As magníficas
vidraças dos modernos arranha-céus explodiriam. Altas temperaturas,
aliadas a outros fatores naturais e consequentes, fariam ruir o
condomínio do homem no mundo. Metais derreteriam. A Torre Eiffel
escorreria para o que outrora fora o agradável Sena. Por fim, as
altíssimas temperaturas derreteriam as montanhas, fundindo seus
minerais. A Terra seria transformada numa grande bolha de magna
fervente. Nada. Nenhum vestígio da humanidade poderia sobreviver para
testemunhar a nossa história. Nada.
Sei que o texto é muito forte, mas, precisamos saber que essas
temperaturas já existem. No último caso, existe no Sol, do qual nem
precisamos nos aproximar tanto para esse efeito, bastando destruir o
véu de proteção que envolve a Terra. Depois, todo esse calor está
guardado debaixo dos nossos lençóis, debaixo da mansão e da palafita.
Seja rico, seja pobre, existe fogo debaixo da cama.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)