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Concurso público para presidente

Não tenho nada contra a democracia enquanto preservação dos valores da
cidadania. Ao mesmo tempo, não acredito que o modelo atual de fazer
política no mundo ocidental represente um modelo pronto e acabado.
Acreditar nisto é algo estranho à própria filosofia, que nos desafia a
crer que nossas verdades podem estar erradas ou, no mínimo, corretas,
porém, em constante necessidade de aperfeiçoamento.
Não acredito que atingimos o topo da democracia. Vejo, sim, que o
modelo de democracia é algo bastante deturpado e que tem servido ao
longo dos séculos a um reduzido grupo de pessoas, principalmente os
partidos políticos. A democracia, assim considerada a manifestação
máxima da vontade popular por meio do voto, é discurso demagógico na
maior parte do tempo.
O povo não tem liberdade. Votamos em pessoas que outras escolhem. Todo
candidato é gestado e parido por um partido político, ou, em partos
mais complexos, nascem de coligações partidárias. Por sua vez, o
processo eleitoral é um grande teatro, onde seus atores comparecem
para tudo, menos para apresentar propostas sérias, projetos. Nesta
eleição presidencial, o Brasil comporta-se como torcedores fanáticos
de dois times de futebol.
Eleição neste modelo carnavalesco é coisa muito cara. Os blocos são
organizados mediante muito dinheiro, o que vai continuar existindo
durante todo o governo. É preciso agradar um mundo de gente. Fico
sempre pensando se precisamos mesmo desse tipo de “democracia” para
termos um bom governo.
Quando penso nisto, não estou pensando em militarização do Estado nem
em outra qualquer forma de poder se impõe pela força, não: penso em
coisas novas, “inviáveis” para o mundo, “risíveis” para outros, mas,
prefiro ser esta metamorfose, lembrando o poeta, a aceitar a ideia que
o nosso modelo político é o máximo que se podia atingir. Certamente,
não é, senão um modelo corrompido, onde pessoas votam em quem não
escolheram e depois vendem seus votos no grande mercado negro da
democracia.
Não associo a preservação de liberdades individuais e coletivas a este
modelo político. Não vejo que o estado democrático de direito restaria
morto caso tivéssemos uma terceira via de escolha de nossos
governantes e parlamentares. O que penso? Bem, por exemplo, por que o
Poder Judiciário, com toda a importância que detém não segue esse
modelo?
Ora, para que alguém chegue ao ofício de juiz é preciso estudar muito,
anos de faculdade, depois anos de preparação para um concurso público.
Por que isto não serve para parlamentares e, no caso específico,
prefeitos, governadores e presidente da República? É chocante
constatar que, em uma nação intelectualizada, pessoas despreparadas
podem concorrer ao posto da maior autoridade do país. Ofende à
inteligência mediana de qualquer povo assistir ao tipo de debate
político que acontece no Brasil.
No caso de presidente, de que precisamos? De um bom governante, uma
pessoa preparada, o que não é nada diferente do que esperamos do
Ministério Público e do Judiciário, por exemplo. Então, penso que o
cargo de presidente da República poderia ser preenchido mediante
concurso público. Seriam habilitados candidatos que tivessem
determinada formação exigida em edital, por exemplo: conhecimento
amplo da história do Brasil, domínio de idiomas, noção de mercado
exterior etc.
Cada estado da Federação faria sua seleção por meio de concurso
público (uma espécie de primeiro turno). Depois, os vinte e sete
candidatos de todo o Brasil (ou em número menor, representando apenas
as cinco regiões geográficas) teriam um tempo para apresentar seus
projetos de governo, sendo depois disto submetidos à escolha popular
por meio do voto. Por fim, teríamos um presidente eleito para um
mandato único de quatro ou cinco anos, cujo controle dos seus atos de
gestão ficaria a cargo do Tribunal de Contas da União e do Supremo
Tribunal Federal.
O nosso modelo atual valoriza muito o que, na prática não tem todo
esse valor. A ideia de escolha de presidente da República por esse
sistema misto acabaria com os partidos políticos, até porque a ideia
seria estendida também a todos os níveis de governo e parlamento. O
resultado apontaria uma escolha técnica. Claro: isto necessitaria ser
trabalhado junto com uma forma de acesso do povo a todo esse sistema,
o que poderia acontecer também por meio dos parlamentares eleitos que,
desligados do atual sistema partidário, estariam mais perto dos seus
eleitores.
Sinceramente, não vejo que a nossa liberdade esteja tão casada assim
com o atual sistema político. Vejo muita opressão, risco e pouca
liberdade de escolha.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)