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O germe do autoritarismo

Em sua visita a três países bálticos, o Papa Francisco lembrou neste fim de semana mais uma vez da importância de a humanidade lutar contra o avanço de ideologias autoritárias. Aquele que em 2014 demitiu Daniel Rudolf Anrig, comandante da Guarda Suíça, exatamente por um suposto autoritarismo, assim tem defendido a democracia e o respeito às diferenças individuais desde que assumiu o pontificado da Igreja Católica. Abram aspas para ouvi-lo:

“Façamos memória daqueles tempos e peçamos ao Senhor que nos conceda o dom do discernimento para descobrir, a tempo, qualquer novo germe daquele comportamento pernicioso, qualquer aragem que atrofie o coração das gerações que, não o tendo experimentado, poderiam correr atrás daqueles cantos de sereia”, disse o Papa hoje, durante o “Angelus”, fazendo referência direta à perseguição contra os judeus no Gueto em Vilnius, na Lituânia, onde falou à multidão.

Importante a fala de Francisco quando menciona o autoritarismo ainda em sua fase embrionária, pois muitas nações, não tendo consciência do perigo que corriam, abriram precedentes legais para a instalação de regimes ditatoriais em seus territórios. É neste sentido que nem tudo que é legal é moral e atende verdadeiramente ao interesse público. A história de regimes totalitários pelo mundo não prescinde de um corpo jurídico para apoiá-los. Mesmo em casos extremos de violação das liberdades individuais e coletivas de um povo – como confisco de propriedades, fechamento do parlamento, amordaçamento do judiciário e torturas – tais atos encontram-se, via de regra, debaixo de cobertura de leis.

O germe do autoritarismo, no dizer do Papa, requer uma detecção social prematura. Qual um agente infeccioso fatal, somente uma medida profilática revela-se eficaz contra a instalação definitiva do mal. No caso do Brasil, às vésperas de eleições gerais em nível federal e estadual, é mister que todo eleitor seja, antes de tudo, um agente reflexivo, que investigue a nossa história, o momento político atual e o perfil de candidatos, mormente daqueles que concorrem ao cargo máximo da nação. Examinando biografias, podemos detectar a existência de possíveis “germes” de autoritarismo nesta eleição.

Em sua oração, o Papa Francisco intercedeu por uma: “atenção delicada aos excluídos, às minorias, para que se afaste das culturas a possibilidade de aniquilar o outro, de colocar ele de lado, descartando quem nos incomoda e ameaça nossas comodidades”. Essa possibilidade de “aniquilar o outro” e de impor discriminação às minorias da população brasileira é um germe que deve ser extirpado nestas eleições. Todos os brasileiros merecem respeito, não importando que sejam crédulos ou incrédulos, mulher ou homem, negro, índio ou mestiço, não importando sejam heterossexuais, homossexuais ou qualquer outro gênero que proclamem. Do ponto de vista da cidadania, todos devem ser abraçados e acolhidos pelo novo presidente da República, pois todos são brasileiros que pagam seus tributos e têm o direito de viver em paz.

Particularmente, fiquei muito contrariado com a declaração do candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. Eu fui criado por minha avó materna, como escrevi recentemente. Porém, diferente do pensamento de Mourão, não obstante eu tenha sido criado sozinho por uma mulher idosa e analfabeta, a nossa casa não era uma “fábrica de desajustados”. Minha avó levou-me à escola bem cedo e ensinou-me a crer em Deus.

Devemos vigiar contra toda forma de imposição de pensamento. A religião, que desde a Antiguidade tem sido usada como força de dominação, precisa passar pelo crivo das leis em vigor em nosso país. Espera-se que igrejas sejam agentes de libertação, jamais de autoritarismo e opressão. Cada pessoa tem direito a votar de acordo com a sua consciência, não devendo nós aceitarmos a doutrina da “união” em torno de candidatos escolhidos pelas cúpulas de convenções de pastores e igrejas. O voto é livre, deve ser este o ensino das igrejas. A liberdade é uma das principais heranças da Reforma. Com razão o Papa. Todos os brasileiros precisam ouvi-lo, católicos e protestantes.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)