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O Brasil em chamas

A tragédia que devastou o Museu Nacional é bem representativa do Brasil. O fogo que levou consigo grande parte da nossa memória é um flash que revela o que somos, o que pensamos sobre a nação e, principalmente, revela a mentalidade dos nossos governantes.

Não é de se esperar que um país governado em grande parte por homens desonestos, que vivem para extorquir o erário e defender-se desses crimes, trate a história, a ciência e a cultura com a atenção merecida. Políticos e administradores desprovidos dos valores do respeito, moralidade e interesse público não têm cabeça para pensar nesse tipo de assunto.

Enquanto o museu ardia, ouvi seu vice-diretor afirmar que, durante a recente comemoração do bicentenário da instituição, nenhum ministro de estado compareceu às solenidades. Que vergonha! Que vergonha de país.

Com raras exceções, museus brasileiros funcionam precariamente. O que aconteceu no Rio não é exceção, é a regra mesmo. O problema começa pela falta de compreensão do povo sobre o espaço museu. Por falta de uma educação séria, grande parte da população acha que museu é um espaço de lazer. Aqui mesmo em Belém, somos ensinados que o Emílio Goeldi tem, por exemplo, a mesma natureza do Bosque Rodrigues Alves. Para o público comum, vai-se ao Goeldi como se vai ao zoológico e ao bosque.

Fui gerado com esta consciência. Durante as tardes de domingo, eu saía com alguns colegas da adolescência para passear, então escolhíamos entre cinemas, Bosque e o Museu Goeldi. Para nós, era tudo igual. Foi somente durante o curso de Geografia que visitei esse museu com outros olhos. Eu fui ali participar de cursos e palestras sobre antropologia, etnologia e temas correlatos. Foi somente quando soube que o museu é um centro internacional de pesquisas, com doutores em trabalho de várias partes do mundo.

Para o brasileiro sem esta visão, o incêndio no Museu Nacional apenas destruiu algumas coisas legais de serem vistas, retirando das famílias um importante espaço de lazer. Na verdade, não, como sabemos.  Ao tempo em que o museu expõe parte do seu acervo à visitação pública, um corpo especializado trabalha com as diferentes áreas museológicas. Acredito que não exista nenhuma instituição mais completa em matéria de produção de conhecimento.

É lamentável que o Museu Nacional estivesse abandonado da maneira como estava, sem sistema de combate a incêndio, sem, pelo menos, água com fartura para o trabalho dos bombeiros. É vergonhoso para o Brasil. Agora, não faltam políticos para fazer selfie diante das paredes tórridas do museu. Não faltarão abutres que utilizarão o fato em proveito próprio, nesta desesperançosa campanha presidencial.

Vendo tamanho descaso domingo, lembrei do que presenciei durante as comemorações do centenário da Assembleia de Deus. Naquele tempo, cooperávamos na instalação do museu da igreja. Um pastor brasileiro radicado nos Estados Unidos contou-me que um dia, lendo na biografia do missionário Gunnar Vingren, um dos fundadores da igreja, que este formara-se em teologia em certa faculdade de Chicago, resolveu fazer uma busca naquela instituição.

Chegando ali, o pastor Joel encontrou toda a informação sobre a passagem do missionário naquela faculdade e, mais, encontrou o trabalho de conclusão de curso de Gunnar Vingren.

Eu estava no Museu Nacional da Assembleia de Deus, aqui em Belém, quando uma comitiva americana chegou para nos apresentar, em primeira mão, o trabalho de Vingren. Tendo permissão formal da faculdade, o manuscrito veio ao Brasil. Impressionou-me o estado da obra: perfeitamente restaurada, devidamente acondicionada em material apropriado, inclusive, com luvas descartáveis enviadas para utilização das poucas pessoas autorizadas a manusear o trabalho. E o mais interessante: ninguém sabia na faculdade de Chicago quem foi Gunnar Vingren na história brasileira. O tratamento era para um simples aluno.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)