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Lamparina no Sol

A ideia que pessoas de bem devem evitar outras consideradas de má
fama ainda persiste. Apesar do avanço da nossa geração, prevalece a
segregação, prevalece o preconceito, seja isto por motivo de raça,
sexo, condição social, convicção filosófica ou crença.
Esta é uma leitura macro, que pode ser lida no planisfério. Países
ricos, todos situados acima da linha do Equador, olham àqueles
localizados na zona tórrida da Terra com certo desdém. Dirigem-se a
essas nações apenas por interesse próprio. Esta é a história da
França, Estados Unidos e Alemanha. Esta é a história do Brasil e seus
compadres pobres. Ampliando a mesma visão, uma análise microrregional
nos mostrará históricas diferenças entre norte e sul. Esta é a
história dos EUA, Itália e Brasil.
Focando no objeto central do nosso artigo, vemos que o homem reproduz
fielmente o mapa da Terra em seus relacionamentos interpessoais. A
ideia que a luz não deve se “misturar” com as trevas está no centro da
mensagem cristã, mas não necessariamente no ensino e no exemplo do
próprio Cristo.
Rubens é membro da Assembleia de Deus há décadas. No passado, ele foi
uma pessoa de hábitos mundanos, embriagava-se constantemente e chegou
a usar drogas ilícitas. No fundo do poço, sem saída, foi impactado
pela mensagem do Evangelho e viu-se liberto. Logo uma porta de
trabalho foi-lhe aberta: pintor de profissão, empregou-se numa
conhecida casa noturna da cidade. Agora, para espanto de seus irmãos
na fé, Rubens trabalhava em uma boate, pintando e revitalizando as
instalações físicas do recinto, incluindo suas dezenas de suítes.
Não demorou muito para que chegassem ao pintor pessoas incomodadas
com aquele trabalho. Como podia aquele irmão da igreja trabalhar numa
boate? Mas, a situação provocou escândalo mesmo no fim do mês quando o
irmão recebeu seu primeiro salário e foi levar seu dízimo à igreja.
Desta vez, os murmuradores não deixaram por menos e sentenciaram que o
irmão não podia dar dízimo de um dinheiro “sujo”. A resposta de Rubens
calou a fofoca: “Olhem, trabalho numa empresa legalizada, sou
profissional e ganho o meu dinheiro com dignidade, não tendo eu nada a
ver com o que os clientes da boate fazem ou deixam de fazer. Eu estou
lá porque Deus me colocou”.
A ideia de uma lamparina no Sol parece fazer a cabeça de muita gente.
Nos tempos de Jesus, alguns religiosos nem falavam com os “pecadores”,
assim considerados os judeus afastados da religião e do templo. O
Mestre censurou essa atitude, afirmando que nada de mais acontece
quando a luz encontra a luz e saúdam-se. Ele ensinou: “Assim também
brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas
obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.”.
Hoje, o mundo cristão falha por concentrar sua atenção na igreja. Nos
primeiros séculos, quando ainda não havia templos, a comunidade via
sua inserção no mundo como uma excelente oportunidade de
evangelização. Depois, todos reuniam-se nos lares para compartilhar as
experiências da semana. Naquele modelo, o mundo era o espaço de
santificação.
Naturalmente, miscigenação é outro tema. Influenciar-se e absorver um
mau exemplo diz respeito à falta de maturidade que pode nos visitar de
vez em quando. Temos um “ide” que nos empurra a viver no meio desta
geração confusa. Sem olvidar que podemos sim sermos cooptados pelo
mundo, não tem sentido algum uma luz colocada debaixo da cama ou do
paneiro. Luz deve ficar no topo, lembrou o Mestre, e deve ficar no
topo para que alumie todas as pessoas da casa.
Foi este mandamento que o pintor Rubens colocou em prática. Que lugar
excelente para trabalhar! Um espaço onde lembrava diariamente o
livramento que Deus lhe dera sobre a bebedeira e a orgia. Um espaço
onde pôde aconselhar tanta gente, gente rica que buscava ali o sentido
da vida, gente pobre que gastava o minguado salário com o que não era
pão. E, com essa contemplação permanente, ajudou muitos, trabalhando a
vida inteira ali até aposentar-se. Não há mesmo nenhum sentido em uma
lamparina no Sol.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)