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O jejum do PT

O Partido dos Trabalhadores está convocando um jejum nacional para o
próximo dia 4, quando a convenção pretende oficializar a candidatura
de Lula à Presidência da República. Considerando o aspecto sui generis
desta convocação, vamos conversar hoje um pouco sobre o tema,
verificando especificidades do jejum petista.
O jejum religioso é uma prática milenar. Os contemporâneos de Jesus
praticavam um jejum exibicionista, para que parecessem mais
santificados que o judeu comum. O Mestre criticou tal atitude e
ensinou que o jejum deveria ser praticado como um ato de adoração
secreta a Deus. Para isto, o participante do jejum deveria lavar o
rosto e ajeitar o cabelo, evitando a todo custo revelar que jejuava e
uma imagem de autocomiseração.
Aqui, temos a primeira grande diferença: o jejum convocado agora não
tem nada de secreto,  pelo contrário, a ideia é justamente formar
fileiras de discípulos e ostentar o maior número possível de
participantes. A ideia é fazer notícia, pautar na imprensa e
repercutir quanto possível nas redes sociais.
Porém, ao contrário do jejum religioso, não se buscará força
espiritual no jejum do PT, busca-se força política mesmo. Não se
pretende ingresso no Reino de Deus. Busca-se ingressar em reino
humano. Primeiramente, busca-se o acesso aos portões eleitorais desse
reino, e se colar, o ingresso definitivo por quatro ou oito anos no
Reino da Presidência da República.
Curiosamente, o jejum é praticado desde tempos imemoriais para fins
de libertação espiritual e até mesmo política. No caso específico de
Lula, literalmente, o jejum pode abrir-lhe as portas da prisão,
livrando-o de uma vez por todas das mãos de Sérgio Moro e toda a
pirâmide acima do Judiciário contrária a ele. Vamos acompanhar esse
jejum.
No caso da libertação espiritual, Jesus ensinou que determinadas
castas de demônios não são expulsas senão por meio de jejum e oração.
Portanto, Jesus situou um caso específico de “impossibilidade” – pois
os discípulos não haviam conseguido exorcizar o capeta – onde somente
o jejum resolvia a questão. Seria isto? Teria o PT descoberto este
segredo bíblico? Não sabemos.
O que sabemos mesmo é que a situação política de Lula está pra lá de
complicada. O ministro Luiz Fux, que preside o TSE, tem dito
reiteradamente que nenhum ficha suja entrará no seu reino, e Lula é
juridicamente um dos tais. Resta sabermos agora a força do jejum
convocado para o dia 4 de agosto.
Acho muito interessante a ideia de jejuar porque no assunto ‘Lula’,
não é este o primeiro jejum de que se tem notícia. O primeiro a jejuar
foi o Procurador Coordenador da Lava Jato no Supremo, Deltan
Dallagnol. Ele confessou jejuar às vésperas do julgamento do habeas
corpus de Lula no STF, ainda em abril. Foi alvo de críticas, mas
defendeu-se afirmando sua fé cristã: “Minha oração e jejum são pela
causa anticorrupção”, foi o que disse Dallagnol.
O PT criticou muito o jejum do procurador, pois lhe parecia que a
condenação de Lula era uma persecução não apenas penal, mas pessoal
mesmo do procurador. E agora? Não sabemos se o PT aprendeu com
Dallagnol, pois, vendo que funcionou para este, copiaria agora o ato
religioso, mas para fins contrários, libertar Lula de uma vez por
todas.
No entanto, parece-me que tanto Dallagnol quanto o Partido dos
Trabalhadores têm falhas no processo do jejum. O procurador,
confessando que jejuava como ato de contrição religiosa, não deveria
jamais ter revelado o ato. Dallagnol infringiu a recomendação de seu
Mestre, acertando apenas na lavagem do rosto e no cabelo penteado,
irretocáveis e incapazes de revelar o menor sacrifício religioso do
procurador.
Errou também o PT, porque parece confundir jejum com greve de fome.
Jejuar é algo bem diferente. É só lembrar de Mahatma Gandhi, que fez
do jejum uma das suas principais armas políticas.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)