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Canibalismo social brasileiro

Durante o movimento paredista dos caminhoneiros, um fato chocou a sociedade: animais, em estado absoluta de fome, praticaram canibalismo. Frangos e porcos, não suportando mais as condições estressantes em que se encontravam, regrediram a um comportamento primitivo, estranho a uma sociedade industrializada.

Numa análise antropológica da questão da violência no Brasil, um tipo de “canibalismo” encontra-se instalado. As mortes verificadas resultam da quase absoluta escassez do elemento da pacificação social. Pessoas “devoram” pessoas praticando crimes com requintes de crueldade, não se satisfazendo em apenas matar, parecem buscar a saciedade de elementos primitivos que repugnam a sociedade evoluída do Século XXI.

A elevada taxa de mortes violentas resulta da falta de condições de convivência na sociedade brasileira. Não se trata apenas da morte de policiais e de agentes delituosos. Sociologicamente, essas mortes resultam de um confronto social velado, fruto da nossa história. Assim, acusam-se policiais de matar bandidos e destes exterminarem policiais, em alguns casos apenas para roubar-lhes a arma, o que constitui um latrocínio especial. Mas, em linhas gerais, a sociedade está se autodestruindo.

Quando uma sociedade não está corretamente organizada por meio de uma política de inclusão social, seus próprios cidadãos guerreiam entre si e guerreiam contra o Estado, o qual revida usando também de uma força primitiva. Nesse tipo de canibalismo social não existe vencedor. Toda vez que o Estado matar alguém – exceto nas figuras jurídicas da legítima defesa e do estado de necessidade – estará reforçando a mesma violência que ataca suas tropas. Ambos os agentes são vítimas do mesmo contexto.

Toda sociedade precisa de normas claras de convivência. Mas, não basta a existência da norma. Nenhum ser humano seguirá cartilhas em situações de absoluto stress social. Policiais precisam ter boas condições de salário e de trabalho. Mal remunerados e sendo obrigados a trabalhar em péssimas condições, muitos não suportarão a estressante jornada diária contra a violência.

Por outro lado, cidadãos que são historicamente excluídos da sociedade, que nasceram e vivem em condições sub-humanas nas favelas, palafitas e outros bolsões de miséria nacional, constituem um excelente mercado para o consumo e tráfico de drogas. A ausência do Estado nas fases da infância e da adolescência dessa população levará esse país a encontrar um jovem viciado e/ou já cooptado pelo tráfico de entorpecentes.

A violência no Brasil é um fenômeno complexo. A cura dessa violência passa pela cura do Estado, hoje, o pior exemplo de integridade no País. O confronto dessa população, gerada pela violência da fome e pela absoluta negação da dignidade humana, será sempre algo chocante, um tipo de canibalismo, onde a população aniquila-se, mais do que no ataque externo da guerra.

A desarmonia social brasileira responde pela assustadora cifra de quase setenta mil assassinatos por ano, isto apenas no campo do homicídio ou da lesão corporal seguida de morte. Mas, esse canibalismo social não para aí: outra grande fatia digladia-se nos caminhos do País. Somente nas estradas federais, houve 89.318 acidentes, com milhares de mortos em 2017.

O trânsito brasileiro mata mais do que algumas guerras. Os Estados Unidos lançaram mísseis sobre a Síria, e não ouvimos falar de mortos. Porém, no Brasil, morre-se todo dia e o dia todo. O que está por detrás desse genocídio? A falta de organização dos espaços de trânsito. Algumas cidades brasileiras ainda não dão à mínima atenção aos espaços de grande concentração e movimento de pessoas e veículos, como os terminais de passageiros.

Logo, quando o aumento populacional de um país não tem a contrapartida da melhoria na infraestrutura pública, o resultado é o caos. Literalmente, pessoas entram em choque umas com as outras. No Brasil, algumas cidades cresceram muito, mas, isto nem sempre veio acompanhado das condições necessárias, resultando conflito urbano, engarrafamentos e acidentes diversos. A mortandade no trânsito brasileiro explica-se também por essa espécie de canibalismo social. Tais mortes decorrem da falta de organização do espaço, transporte adequado e educação urbana.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)