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Empoderamento de igrejas

A política nasceu casada com a religião. No Egito antigo, faraós concentravam as funções de chefes de estado e sumo-sacerdotes. Em estágios mais avançados, esse sincretismo atribuía poderes divinos a tais governantes. Foi assim em Roma e no próprio Egito.

Praticamente todos os estados da Antiguidade eram teocratas. Mandava o deus de cada povo. As leis sociais estavam impregnadas de preceitos religiosos, sendo muitas vezes codificados no mesmo tratado religioso que o povo seguia. Assim temos o Antigo Testamento e o Alcorão.

Quado Jesus entrou em cena, não era diferente. A religião de Israel era algo extremamente estratificado. Na cúpula, o Sinédrio, a alta corte religiosa e civil, composto em grande parte pela família dos sumo-sacerdotes. Os altos oficiais da religião judaica tinham vida de nobres. Moravam em amplos palácios, dispunham de muitos empregados e até de uma guarda particular. Quando apareciam em público, suas vestes alvejadas lembravam o branco do mármore de suas mansões. Eram temidos pelo povo porque dele estavam separados pela fortuna.

Talvez você pergunte de onde vinha o dinheiro. Ele vinha dos dízimos, de impostos religiosos e do favor de Roma. Sem pensar duas vezes, a cúpula religiosa cedeu ao Império Romano em troca dos muitos favores que César lhe garantia. Decorridos dois mil anos, esse quadro não mudou muito. A Igreja empoderou-se.

Naturalmente, a primeira igreja a empoderar-se foi a religião católica, de representatividade esmagadora ao lado de pequenos grupos de cristãos independentes ao longo dos primeiros quinze séculos. Quando Lutero empreendeu a Reforma, a Igreja havia empoderado tanto que chegava a competir com o Estado. A Igreja detinha um fabuloso patrimônio, centralizando recursos financeiros recolhidos do mundo inteiro.

Com o passar dos últimos séculos, a Igreja Católica afastou-se da política partidária. Muito embora seja inegável a influência que ainda exerce, principalmente na América Latina, sua linha de atuação política tornou-se um tanto mais neutra quanto a ditar os rumos das nações onde exerce seu governo religioso.

Em contrapartida, se o seguimento católico fortaleceu-se sobremaneira, de tal sorte que pode se arvorar a reduzir sua influência no Estado, o fortalecimento do seguimento evangélico revelou-se uma excelente oportunidade de reatar o nefasto e abominável casamento entre o poder político e a religião.

Neste cenário, o Brasil ganha destaque. Igrejas importantes despertaram a atenção de segmentos partidários, ao mesmo tempo em que, percebendo essa pujança, lideranças nacionais resolveram reatar o antigo pacto com o poder temporal.

É exatamente este o cenário político atual. Pastores e partidos enamoram-se, visando a um casamento do dia 7 de outubro. Reconstrói-se a antiga fórmula. O prejuízo atinge os dois lados.

Estado e Igreja sofrem profundamente com essa miscigenação. Deus é Deus. César é César. Trata-se de duas naturezas distintas. O Estado é uma força que pode apresentar muitas facetas, ao passo que Deus é imutável. Devido ao caráter mutante do Estado, este pode revelar-se bom ou mau, justo ou injusto. Mesmo em nações que vivam sob o domínio do voto, a escolha de um representante não significa sempre um acerto.

A Igreja tem outro foco, ela existe como sal da terra e luz do mundo. A Igreja tem um papel único, ela deve influenciar a sociedade, inclusive a política, sem jamais se enveredar por seus caminhos escorregadios. Para isto, necessária a isenção político-partidária de seus representantes. Casados com o Estado, clérigos perdem autoridade espiritual e tendem a defender quem apoiam.