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Um novo Brasil

A democracia brasileira está em avançado processo. Essa solidificação ocorre toda vez que as instituições de um país situam-se acima de interesses individuais. A próxima eleição já vem com esta nova feição. Quem apostou em pessoas perderá. Vencerá a Nação. Vencerá quem conseguir enxergar a nova cara do Brasil.

Regimes totalitários e democracias flutuantes estão erigidas sobre o alicerce do individualismo. Nesses espaços políticos, predomina o mito do homem. A figura do benfeitor do povo, do homem forte e acima de qualquer suspeita acabou neste país.

A Operação Lava Jato é crucial nesse amadurecimento político. Em poucos anos, ela vem derrubando impérios políticos e fortalecendo a imagem institucional do país. Para isto, de suma importância tem sido a perda do foro privilegiado. Agora, é preciso que, exceto a função de Presidente da República e congêneres em importância, a questão do foro deixe de ser um privilégio político.

As eleições deste ano focarão mais no institucional e menos no indivíduo. Já amadurecemos o suficiente para não acreditarmos mais em ídolos na política. Aprendemos a duras penas que nenhum agente público está imune ao vírus da corrupção. Depois de se debruçar sobre uma importante ala política brasileira, a Lava Jato abre os tentáculos para alcançar outras bandeiras. Ninguém escapará.

É assim que, em uma eleição onde importantes ícones da política brasileira desejam ver seus nomes longe do noticiário, o institucional prevalecerá sobre o indivíduo. Ao meu ver, nenhum candidato que se apresente como a solução vencerá o próximo pleito. O momento requer uma leitura conjuntural e somente quem conseguir unir seu discurso a este momento poderá sonhar com a Presidência. Vamos olhar agora como está esse cenário.

Bem, com é quase certa a ausência de Lula nestas eleições, espera-se que o PT apresente um novo candidato ou, em última hipótese, alie-se a outro candidato em potencial. O convite de Lula a uma visita de Ciro Gomes à cadeia pode sinalizar essa aliança. Resta saber o que pensará o povo no dia fatídico das urnas.

Joaquim Barbosa parece que vem, e vindo arrebatará muitos votos. Embora ele represente ainda esse foco no indivíduo, sua passagem como ministro do STF pode funcionar bem neste momento institucional que vivemos, aparecendo como a encarnação do fortalecimento das forças democráticas. Além disto é negro e de origem pobre.

Marina também vem, e parece vir bem diferente de outras vindas. Sua Rede está bem fortalecida e tem a seu favor o discurso institucional que sempre manteve, bem como não figurar em nenhum escândalo. A figura de estadista que detém pode funcionar muito bem neste momento delicado, podendo, sem sombra de dúvidas, despontar como favorita ao Planalto.

Neste momento, não podemos esquecer que as eleições ocorrerão livres das doações escandalosas de pleitos anteriores, com financiamento público, onde até o dinheiro ditará as regras eleitorais. Não podemos esquecer também da nova fórmula para uso de espaço gratuito em rádio e televisão. Devido ao contexto atual, falar muito pode não significar mais nada. Pode ser que alguns candidatos tenham mais coesão em discursos pequenos, ao passo que a ampla grade dos grandes partidos acabe funcionando como um grande espaço de contradição. No momento, parece que vencerá quem falar menos, mas falar bem, sem nada a temer.

O PSDB ainda é uma indefinição. Alckmin pode vir, ou Tasso, ou o muito improvável Aécio. Todavia, afora Tasso, os demais enfrentam momentos delicados. Na verdade, o tucano não está muito bem com essa ação penal contra Aécio e acusações outras sobre o governador de São Paulo. De qualquer modo, o PSDB terá de se reinventar nestas eleições, principalmente quanto à candidatura à Presidência.

Este é um tempo onde a fórmula de Montesquièu atingiu seu melhor ponto de equilíbrio em nossa história. As eleições para o Executivo e Legislativo encontrarão pela primeira vez um Judiciário mais independente e um Ministério Público no auge do seu ofício de guardião da democracia. Vencerá quem não deva nada a esses Poderes, se me permitem incluir o MP. Perderá quem ousar falar mal das instituições. Perderá quem ousar duvidar do ofício do Ministério Público e do Judiciário. É passado o tempo mitológico da nossa política. Amadurecemos suficiente para saber quem fala a verdade, quem blefa e quem devia ficar calado.

Este é o novo desenho do Brasil. Hoje, somos um país forte, apesar da gritante contradição entre receita e aplicação de recursos. Não obstante, se ainda não vemos a prestação de contas de cada centavo que de nós é tributado, já alcançamos o topo do monte.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)