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A militarização do governo Temer

 A aproximação dos militares no governo Temer tem sido um alvo de preocupação e críticas. Desde o processo de redemocratização do País, não víamos tanta presença militar no Planalto. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança institucional é um general, um dos principais assessores do presidente. E agora, também pela primeira vez desde as Diretas Já, temos a intervenção de um estado da Federação. Pesa também ao governo a presença de um militar na pasta da Defesa.

                Sem discutir competências, dentro de um quadro normal, é correto que o Brasil seja administrado por civis. A presença militar já está devidamente assegurada pela Constituição. Cada seção das Forças Armadas tem o seu próprio ministro, isto basta dentro de uma democracia que vai bem das pernas. Pulverizar a nação com militares em áreas estratégicas do Estado é brincar com fogo.

                Países com democracias vacilantes abrem os cofres e os cargos para os militares. Na Venezuela, Maduro sustém-se no poder às custas da farda. Ali, todos os principais cargos do país estão com os militares. Logo as forças armadas tornaram-se um grupo privilegiadíssimo na pátria caribenha. Com essa estratégia governamental, esvai-se a última esperança dos venezuelanos, que desgraçadamente só poderiam sonhar agora com uma rebelião das fardas.

                Muito embora a situação brasileira seja em muito superior ao que se passa no país vizinho, não deixa de preocupar essa ocupação militar no centro do poder político nacional. Por um olhar puramente geográfico, o Rio de Janeiro hoje reproduz o estado do Brasil há poucas décadas. A paisagem é a mesma – Forças Armadas nas ruas – embora a intenção seja outra, tanto de Temer quanto dos próprios militares.

                Ocorre que o Brasil tem visto que sua democracia não é tão segura assim. Dilma Roussef foi afastada do poder anos antes de ver seu nome constar de alguma delação. Parece que é possível apressar as coisas quando Brasília quer. Vivemos agora um tempo híbrido em matéria democrática. Poucas décadas da redemocratização, e eis dois presidentes afastados pelo Congresso, um terceiro “preparado para ser preso” – nas palavras de Lula – e um mandatário com investigação autorizada pelo Supremo. Nada parece muito firme em um terreno assim.

                A intervenção federal é o termômetro fiel do péssimo momento que vivemos. O Brasil está com febre alta por causa de uma infecção quase generalizada. A presença dos militares no Rio de Janeiro significa que o Estado faliu, pelo menos naquele pedaço de morro. Significa que precisamos desviar a mão-de-obra de um serviço criado para proteger as fronteiras.

Por sua vez, todos sabemos que a intervenção não resolverá o problema do Rio. Não estão no Brasil as plantações de coca. Não estão aqui os laboratórios de refinamento do pó. Não estão aqui os principais mercados consumidores. Não dá para enfrentar essa questão com tanques nas ruas. As nações afetadas devem trabalhar de modo integrado em áreas múltiplas. É preciso investir pesado na educação fundamental, avançar no Ensino Médio e reforçar a universitários já doutrinados que a droga é uma ideia ruim.

Não se trata de uma guerra convencional, pois o verdadeiro inimigo é uma ideia, uma ideia hedonista alucinógena que precisa ser desmascarada. Isso leva anos, continuidade de planos, muito orçamento e cooperação internacional. A intervenção no Rio não conseguirá vencer essa guerra.

Voltando ao tema, pensamos que, além de não resolver o problema, a presença das Forças Armadas nas ruas é algo intimidatório para a população. Todos sabemos que os militares estão ali para o nosso bem. Todavia, todos sabemos também que a presença militar nas ruas soa como “provocação” para o outro lado. Resultado disso? Mais insegurança.

Esperamos que o governo dê meia-volta nessa questão de elevar militares a postos civis. Como dissemos, constitucionalmente, todos já têm o seu quinhão. Quando muitos militares vestem paletó em determinada democracia, é preciso cautela. Segundo a Carta Magna, todo o poder emana do povo. É o povo que deve manter Temer até o fim do seu mandato. O processo de redemocratização tem provado que temos um excelente contingente militar. Temos passados tantos momentos ruins desde então, e eles souberam permanecer nos seus devidos postos. Não é bom mexer com isso agora.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 20 de março de 2018