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50 anos da Justiça Federal

  Amanhã, a Justiça Federal celebrará cinquenta anos de criação. Tendo ingressado em seus quadros em 29 de outubro de 1992, sou parte de metade dessa história.

                Quando tomei posse no cargo de Analista Judiciário, a Justiça Federal funcionava no imóvel da Generalíssimo Deodoro, inaugurado em 27 de maio de 1974, onde hoje funcionam alguns setores administrativos. Eram apenas quatro varas. Na pequena sala onde eu trabalhava com mais quatro colegas, funcionava o Núcleo de Administração e vários departamentos, tais como serviços gerais, compras e licitações, vigilância e patrimônio.

                Prateleiras localizadas em uma das paredes da nossa sala continham todo o material de expediente da repartição. Nossos papéis de trabalho datilográfico vinham de Brasília, constando de modelos devidamente identificados. Não havia subseção no interior. Computador, existia apenas um na sala do diretor de secretaria administrativa, o saudoso José de Aguiar Barroso.

                Entrar naquela sala e usar aquele computador era o sonho e o temor de todo servidor do administrativo. Não era fácil trabalhar com aquela engenhoca. Para digitação de breves palavras eram necessários inserirmos códigos sobre códigos. Eram os tempos da telinha verde, tempos do antigo Cobol. Somente em situações excepcionais tínhamos autorização de tocar naquela relíquia da informática.

                Todo o nosso trabalho era realizado em máquinas de datilografia manuais. Somente depois chegaram os modelos elétricos e eletrônicos. Estes representavam o que havia de mais adiantado em termos de edição de textos. Algumas máquinas tinham fita corretiva automática e até uma pequena memória que permitia reproduzir trechos de documentos mediante determinado comando.

                Pouco tempo depois a Justiça Federal mudou-se para o prédio onde funciona hoje, terreno que na verdade era o quintal da Casa Rosada, o imóvel da Generalíssimo Deodoro. Aos poucos, a administração foi comprando e desapropriando os imóveis que escondiam a fachada da Justiça pela Domingos Marreiros. Acompanhei passo a passo esses atos administrativos, indo várias vezes aos órgãos municipais que detinham os processos de desapropriação.

                A chegada do computador mudou tudo. De repente, aquele vultoso contrato de manutenção de máquinas foi sendo drasticamente reduzido até o fim. Toda a comunicação direta com o Tribunal, em Brasília, que importasse em ordem de viagem, por exemplo, era feita por meio de telex. Uma máquina enorme ficava na sala da secretaria administrativa. Ouvir a máquina ligar de repente e começar sonoramente a digitar cada letra do telex era sinal de alguma comunicação importante chegando. Não demorou muito, e telex e fac-símiles foram também descartados.

                Trabalhando a maior parte destes vinte e cinco anos na função de oficial de gabinete da diretoria do foro, pude conviver com todos os magistrados que chefiaram a repartição. Meu testemunho é de pessoas comprometidas com seus misteres, no que seria justo citar o decano juiz federal Rubens Rollo D’Oliveira, que bem representa a competência e a acessibilidade de seus pares. Por muito tempo trabalhei com o Dr. Rubens e com o juiz Daniel Paes Ribeiro, hoje desembargador federal, no Tribunal Regional da Primeira Região, Brasília.

                Quando estamos há vinte e cinco anos no mesmo lugar, podemos refletir sobre muita coisa. Houve muitas mudanças, certamente, mas, para mim, sinto-me como se estivesse chegando hoje ao primeiro dia de trabalho. Sabemos que o tempo passa, porém, é este dia mesmo o que importa. Muito embora eu tenha participado apenas da metade da história da Justiça Federal no Pará, esta condição me permite imaginar como deve ter sido o jubileu de prata. Consigo enxergar a primeira parte não vivenciada por mim no seu aspecto temporal.

                Criada como parte do processo de redemocratização do país, eu ainda convivi com uma Justiça Federal praticamente anônima para a sociedade. Nos primeiros anos de trabalho, muitas vezes eu precisei explicar detalhadamente para taxistas onde ficava o prédio. O povo não conhecia. Hoje, a Justiça Federal é conhecida no campo e na cidade, tornou-se sinônimo de inclusão social e da conquista mínima de direitos pelos cidadãos menos favorecido.

                Sinto-me agradecido a Deus pela justiça Federal. Lembro-me que alguns anos antes de eu ingressar no cargo, um advogado levou-me à Casa Rosada, ao exato lugar onde hoje eu trabalho, e me disse: “Olhe, este é um bom lugar para você trabalhar!”. Anos depois, veio o concurso, e agora estou contando a história de vinte e cinco anos de Justiça Federal. O Dr. Waldir Lameira, o advogado, acertou em cheio!

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 13 de março de 2018