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A Rampa rachou

A rampa do Palácio do Planalto rachou. Construída em 1960, a rampa não é apenas um meio de acesso ao poder, ela é um símbolo desse mesmo poder. Subir seus poucos metros equivale a muito, equivale subir ao topo do Executivo, significa andar pouco e ir longe, muito longe.

             Como um tipo simbólico, a Rampa rachou exatamente quando o presidente Temer vive o maior solavanco na sua estrutura política, esquecida, claro, outra viva acusação que se tornou fúnebre na Câmara. Desta vez, as coisas são bem diferentes. Quem requereu a inclusão de Temer no inquérito da Lava Jato não foi Janot, não foi vingança, portanto, como diriam alguns.

             Requereu a inclusão Raquel Dodge, a chefe do Ministério Público Federal nomeada pelo presidente. Autorizou Edson Fachin, já notabilizado pela imparcialidade de suas decisões no Supremo quando o assunto é Lava Jato. De fato, o presidente balançou sério agora, pois mesmo não sendo processado, uma investigação pode ser oportuna para um mandato com meses contados. Concluída a investigação, e Temer não eleito, cai o privilégio do foro e a conversa jurídica dos autos vai cair direto nos ouvidos aguçados da Justiça Federal em Curitiba.

             Não é à toa que a Rampa rachou, a inclusão de Temer em inquérito chega muito fortalecida. Não é vingança, já dissemos. Pela primeira vez, incluiu-se um vulto político de primeiríssimo escalão, o presidente. Quem achava que a Lava Jato mirava apenas a bandeira vermelha, começa a pensar diferente. Temer usa verde e amarelo.

Não é à toa que Temer ficou irritadíssimo, afinal de contas Dodge chegou aonde chegou pelas mãos do presidente. Porém, atos administrativos à parte, Dodge chegou pela sua própria competência, ela sempre foi durona, Temer sabia disso. O Ministério Público sai ganhando essa, ganham as instituições democráticas, porque imparcialidade ignora gratidão. A quem honra, honra, sem distinguir os investigados.

Complicou mesmo. O PMDB reduziu o nome, ficou mais sonoro e concorrente, mas agora essa investigação pode complicar o Temer. Muito embora investigar seja diferente de culpa, o palanque eleitoral não lê a Constituição. Se porventura Temer se lançar à Presidência, esqueça-se essa história de trânsito em julgado, o trânsito vai tentar parar de vez o Planalto.

Enquanto Temer analisa se questiona no próprio Supremo sua inclusão entre os investigados, a Rampa continua rachada, avariada, sem condições de dar posse ao novo mandatário do país. No máximo, a Rampa ajuda a descida, é fácil e todo inimigo ajuda, não tem pompa, não tem festa, nada de Dragões da Independência.

Politicamente, vivemos um tempo confuso, um misto de bem e mal. É mal que tenhamos um ex-presidente condenado, Dilma afastada por Brasília e agora o atual mandatário investigado. É mal mesmo, com certeza. Agora, pensemos pelo ângulo da verdade e da justiça: se temos este quadro no Brasil, significa dizer que, apesar dos pesares, nem tudo está perdido, ainda existe certa independência dos Poderes, nós cremos no que estamos vendo. Pior seria na Venezuela, na Síria, na Coreia do Norte, pior, milhões de vezes pior!

Cabe ao Planalto mandar reparar a Rampa. Rachou, cabe conserto, as estruturas não podem desmoronar. Se Temer estremeceu um pouco, esse abalo não pode sacudir o país. O Brasil deve prosseguir na sua luta diária contra o crime, não somente com tanques e fuzis nas ruas, deve fazer a lição de casa. Pode ser que a investigação de Temer não conclua nada que desabone o presidente, melhor pra ele, com certeza, melhor para todos nós, que ainda cremos numa nação de equidade.

O poder é assim mesmo como a Rampa, que está lá fixa, aparentemente imóvel. Na verdade, o poder tem um tecido tênue, não é novidade esgarçar aqui ou ali. Consertar a Rampa não é difícil, em poucos dias estará pronta novamente para o uso. Agora, consertar o poder é outra história, requer muita costura, reticências e reticências, vírgulas e ponto-final. No âmago mesmo, raramente o poder é tecido justo, quando muito se mostra assim. Mas importa consertar a Rampa, afinal de contas vamos precisar dela não depois de muitos meses.

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br