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Salve, Vigia! Salve, Belém!

Pela ordem, 6 e 12 de janeiro são as datas de fundação de Vigia e de Belém.
Pontos da mesma viagem, referidas cidades foram fundadas em 1616 pela
expedição do português Francisco Caldeira Castelo Branco durante sua viagem
de conquista do Grão-Pará.

Estive em Vigia na véspera do seu aniversário. Minha cidade natal ainda
conserva as linhas de seus primeiros séculos. Muito embora tenha
experimentado grande expansão em terra firme, sua fachada ainda sobrevive
graças ao pujante rio Guajará- Mirim. Olhando a cidade durante a noite a
partir do trapiche municipal em companhia de minha irmã Isaura, residente
atualmente em Santa Catarina, encantamo-nos com a força das suas
correntezas. A vida marítima continua sendo a principal marca da
cidadezinha. Às vinte e uma horas, a frente da cidade estava pulverizada de
barquinhos coloridos.

Exposto logo à entrada do escritório pastoral, onde recebo pessoas
diariamente, tenho uma extraordinária pintura a óleo de 1920, que retrata a
cidadezinha há quase um século. Nele, o atual mercado – atualmente em
reforma – ainda não havia sido erguido. Porém, várias casas ali retratadas
ainda hoje testemunham a vocação pesqueira do lugar.

Tendo chegado primeiramente à região de Vigia, a expedição de Castelo
Branco – que só tocaria o chão de Belém seis dias depois – encerrou aqui a
viagem iniciada no dia 25 de dezembro de 1615, razão por que Belém foi
inicialmente chamada de Feliz Lusitânia, em alusão ao Natal que lançou a
expedição ao mar.

Hoje, quero deixar com você um retrato de Belém em 1653, ano em que o padre
Antônio Vieira visitou nossa cidade de Belém. Para isto, precisarei
transcrever longos trechos da majestosa obra “Os Jesuítas no Grão-Pará”, de
J. Lucio D’Azevedo, Secult, 1999, lançada originalmente por ocasião do
tricentenário de Belém. É uma bela descrição da nossa cidade. Colocarei
algumas notas minhas entre parênteses e ajustarei o texto, no que preciso à
leitura atual, posto que a obra foi versada em legítimo português arcaico.

“A 5 de outubro de 1653 chegou Vieira. Desembarcando perante a turba de
ociosos (atentemos para o elemento pejorativo), que de cada vez concorriam
à praia a saber das notícias, e reconhecer os que chegavam (…) Não o
surpreendeu de certo a miséria evidente da povoação, nem as ruas lamacentas
ensopadas pelas chuvas cotidianas; as casas cobertas de palha, entre as
quais as edificações consagradas ao culto se distinguiam (…).

De um lado para o outro vagueavam os índios quase nus, os brancos e
mestiços vestidos de algodão grosseiro da terra, de um alvacento sujo, ou
então tinto da cor avermelhada (…). Repartia-se a cidade em dois bairros:
um antigo, limitado pelas atuais praças da Sé, do Carmo e de São João,
chamava-se, como ainda agora, “A Cidade”. O outro, habitado depois, quando
a população crescente foi carecendo de maior espaço, acompanhava o curso do
rio, tomando por nome “A Campina”. No ponto limítrofe de ambas as divisões,
em lugar denominado pelos primeiros habitantes, estava “O Portão”,
provavelmente porque se achava ali o que dava ingresso; pela muralha ao
povoado, ficava a residência dos jesuítas”.

Em seguida, o autor falará das principais ruas: “Da praça, onde se via
também a Matriz, a casa da câmara e do governador, partiam quatro ruas no
sentido longitudinal, em frente ao colégio, as mesmas que no presente se
estendem até às igrejas do Carmo e de São João. Quatro vias transversas
completavam esta parte, que fora a primitiva cidade. A fortaleza,
construída de taipa, dava para o largo (note o material do Forte), na mesma
posição em que a vemos hoje (isto é, no tricentenário), porém com menor
recinto; fora encontrava-se a ermida do Santo Cristo (desconheço a
informação), e logo adiante, na primeira rua, a do Rosário. Isto para a
banda do sul.”

Depois, o escritor segue falando da Campina: “Do lado do norte, passando o
portão da Campina, começava a povoação a dilatar-se pelo arredor, em duas
compridas ruas que são agora as da Indústria (Gaspar Viana) e de Santo
Antônio. Ao final dessas ruas ficava o Convento dos Capuchos e, na
primeira, encostado à praia, o dos Mercedários.”

Vejamos, assim, como Belém surgiu a partir dessas primeiras ruas, que
formavam apenas dois bairros, um dos quais, o da Campina, conserva-se até
os nossos dias. Hoje, Belém precisa valorizar mais esse importante legado,
preservando monumentos magníficos, tais como o Mercado de São Brás (de
história mais recente), e tantas outras pedras vivas de nosso passado tão
belo. Salve, Vigia! Salve, Belém!

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)


Rui Raiol
Amigos da Oração
www.ruiraiol.com.br