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o fator jerusalém

Mais uma vez, Jerusalém está no centro das atenções do mundo. Na verdade, desde que existe, Jerusalém sempre ofuscou todos os brilhos. Agora, a caneta de Donald Trump ganha fama reconhecendo o que já era séculos antes de Cristo: Jerusalém, capital de Israel.

Não é de hoje que povos reivindicam a posse de Jerusalém. Judeus muçulmanos e cristãos esquartejam cada palmo da cidade. Todavia, Jerusalém está acima de todo mundo. Jerusalém já existia antes de Josué conquistar a Terra Prometida. Foram anos de matança e destruição. Quando Davi capturou a cidadela de Sião, ele estava capturando um lugar habitado desde 5.000 a. C.  A religião entra em cena para justificar o genocídio, não porque Deus seja sanguinário, mas, porque o homem tende a traduzir Deus de acordo com seus interesses. Foi assim e continua sendo.

Geograficamente, Jerusalém não tinha nada para justificar seu brilho. Verão tórrido e inverno congelante. Escarpas que repelem o pé humano. Jerusalém ganhou fama com a derrota. Quando Nabudonozor conquistou a cidade em 586 a. C., Jerusalém era famosa pelos seus cemitérios montanhosos que datam de 3.000 a. C. Nada era novidade. Mas, assim como o famoso quadro de Leonardo da Vinci ganhou fama quando foi furtado no começo do século XX, Jerusalém virou notícia com a audácia de Babilônia.

Dessa data até hoje, Jerusalém transformou-se e fato e mito. Cidade de Davi. Lugar da tentativa de sacrifício do primogênito Isaque. Se a posteridade de Abraão quase termina naquele monte, foi exatamente ali que ganhou fama. Moriá, lugar onde Deus proveria o necessário à longínqua nação abraâmica. O brado do anjo que evita a morte do pai de Israel nunca mais seria esquecido.

Israel organizou-se em torno de uma cidade. Jerusalém, a capital da religião, o lugar do Templo. Ainda no exílio babilônico, o profeta Daniel orava três vezes por dia com o rosto voltado para Jerusalém. Ele não sabia que mais tarde outro povo imitaria seu gesto. Abraão gerou outro filho, e ele nasceu antes de Isaque, e Deus lhe fez promessas também. Séculos passaram-se até que algo surpreendente aconteceu: um homem declara-se o enviado da parte de Deus, o Messias, aquele profetizado nas Escrituras.

Porém, quando esse homem nasce Jerusalém é demais importante para dar atenção ao filho de um carpinteiro. Jerusalém era muito importante. O Templo era uma instituição. Centenas e centenas de homens viviam às custas da religião de Abraão. Alguns deles desfrutavam do status capaz de deixar César enciumado e cuidadoso. Os líderes da religião moravam em luxuosos palácios de mármore cuja cor se confundia com suas alvas túnicas que lhes davam ares de semideuses. Reunidos no Sinédrio, podiam legislar e executar leis.

Muito dinheiro corria no templo de Jerusalém quando um menino deixou doutores da Lei boquiabertos. Além dos dízimos e de sem número de ofertas, havia impostos para tudo. A nação trabalhava para sustentar o fausto dos que, autoproclamados representantes de Deus, faziam de Jerusalém a sede do poder que se mantém sob o jugo da religião.

Não demorou muito, e aquele pobre filho de Maria e José seria perseguido. Mal abriu a boca para denunciar a vida extravagante daqueles muitos fariseus, e logo a emboscada e o ardil lhe ameaçava. A solução foi refugiar-se na Galileia, longe de Jerusalém, à qual retorna cerca de três e meio depois de começar a pregar para ser morto a pedido da religião. Agora, a história de Jerusalém ganhava um novo capítulo. A partir de então, seria a capital de Israel e o ponto de partida da ordem de evangelização do cristianismo.

Passaram-se alguns séculos, e eis que Maomé entra em cena. O islamismo constrói uma história fascinante sem esquecer Jerusalém. Pronto! De agora em diante Jerusalém seria reivindicada como a cidade das três religiões que nasceram de Abraão. Não é fácil solucionar isto. Não é justo decidir com base no fundamentalismo.

Jerusalém é a única cidade a existir no Céu e na Terra. Em suas visões no Apocalipse, João descreve a Nova Jerusalém, que ostenta poder e glória desde seus alicerces construídos em camadas de pedras preciosas e semipreciosas. Essa cidade flutuante é a Santa Cidade. Trasladada. Construída por Deus nos céus, cujas portas têm o nome das doze tribos de Israel.

Jerusalém, cujos registros remontam à Idade do Bronze, é também a cidade onde Jesus Cristo pisará para implantar um reino de mil anos, segundo a Escritura apócrifa para judeus e muçulmanos. Como decidir a questão geopolítica? A nós é prudente a tolerância, e o que há de ser será.

Rui Raiol é escritor.

(Site: www.ruiraiol.com.br)