ARTIGOS EM JORNAIS

BANHO DE ANIL

 

 Nossa infância é um tempo mágico, fértil de tanta história, história capaz de encher o mundo e contrastar muito do que nos tornamos ao avançar das estações da vida. Hoje, quero lembrar um pouco do que você e eu vivemos nessa fase gostosa quando um simples gibi tinha o poder de nos arrebatar até as terras longínquas da nossa imaginação.

             Você deve ter aprontado muito também. Mas, assim quanto eu, esse “aprontar” não tinha o vício do dolo, a gente errava porque era pueril, errava porque estávamos ainda sob aquela maravilhosa névoa da primeira década de vida.

             Ainda hoje quando eu penso nos meus dez anos, lembro com clareza que tinha ali já definidos os traços da minha personalidade. Naquela fase, a gente sonhava acordado. O mundo era uma viagem que começava movida a pé pelas nossas carreiras de menino. Estávamos no paraíso e não sabíamos, aliás, a inocência era o motor daquele tempo.

             Por volta de seis anos, minha mãe enviou-me a uma missão difícil. Eram cinco horas da tarde quando ela, com o jeito rigoroso de sempre, mandou-me até o mercado comprar peixe. A ordem era comprar um peixe grande e barato. Pelo que recordo, era essa a missão das missões, primogênita de muitas outras que a sucederiam.

             Agora, eu tinha em mãos algo como dez reais no dinheiro de hoje. Estava a caminho do mercado de Vigia, onde morávamos. Minha mãe morava no final da rua do mercado, exatamente o final, cerca de um quilômetro do peixe. Eu morava com a minha avó materna duas ruas paralelas depois, porém, bem mais perto do rio e do mercado.

             Mandei-me para o mercado. Chegando, olhei os peixes que haviam chegado na última maré da tarde. Não demorou muito, e meus olhos encantaram-se com uma enorme espécie. Eu não conhecia o peixe, nem de comer de chama-lo pelo nome. “Quanto é este peixe?”, indaguei do ambulante. “Apenas oito reais”, respondeu o homem. A resposta não podia ser melhor. Negociamos.

             Colocando um cipó na boca do peixe, o vendedor fez um laço e prendeu a enorme pesca nos dedos médio e indicador da minha mão direita. Era tanto peixe que arrastava a cauda no chão. Minha mãe deveria ficar muito feliz, pois, eu ainda levava um trocado no bolso. Mas não foi bem assim!

             De longe, minha mãe espreitava da pequena janela da sala. De longe, reconheceu meu infortúnio. Não tive muito tempo de ficar feliz. Ao receber o peixe da minha mão, mamãe estava a raiva em pessoa. Apanhou o peixe e atirou o pobre coitado do outro lado da rua. “Vai trocar esse peixe, que eu não como! Isso é cará-açu!”, praguejou.

             Ajuntei minha missão fracassada e rumei para a casa da vovó, eu queria um reforço para convencer o peixeiro. Mas, não foi preciso, o homem já dera no pé. Agora, enfiamos um galho na boca do peixe e, cada qual de um lado da encomenda, minha avó e eu estávamos na Generalíssimo de volta para mais um quilômetro de desilusão. O reforço poderia me evitar uma surra.

             Mas, acalmar a mamãe era algo difícil, ela não amolecia nem com a presença de sua própria mãezinha, que era quem me criava. A surra era iminente. Então, um livramento surgiu de súbito: “Seu Bacurau”, um vizinho próximo, ouvindo o nome do peixe cantado em verso e prosa, apareceu para dizer que o peixe era bom, o preferido dele, e que estava ali para comprá-lo. Ah, sim, isso foi um milagre! Livrei-me da surra e aprendi pelo menos a não comprar o peixe errado para a mamãe. A noite tinha chegado.

             E o banho de anil? Você me pergunta. Bem, isto aconteceu um dia quando minha mãe saiu de casa e deixou-me incumbido de dar banho no meu irmão Ronaldo, recém-nascido com poucos meses de vida. Quando chegou a hora do banho, coloquei água na gamela e lavei o pequeno, mas, o menino não me parecia bem limpo. Foi aí que lembrei do bendito anil. Minha avó – aquela mesma do peixe – costumava usar o produto quando enxaguava as roupas brancas que lavava para outras famílias.

             Não contei dois, apanhei uma boneca de anil e taquei-lhe na bacia. Agora, eu tinha certeza que o garoto ficaria mais claro. Porém, o tiro saiu pela culatra: quanto mais eu aumentava o anil, mais o pequeno escurecia. Mesmo sem entender por que não dera certo, sequei o Ronaldo e esperei a mamãe chegar para obter a explicação.

             Quando a mamãe chegou, o Ronaldo era mesmo um fenômeno, estava roxinho, roxinho. A explicação? Bem, minha mãe providenciou do jeito dela, depois de lavar e quarar o pequeno para livrá-lo da tintura. Eita tempo bom! Cruzes!

Rui Raiol é escritor

(Site: www.ruiraiol.com.br)