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SOLIDÃO ACOMPANHADA

A solidão é uma das piores desgraças desta geração. Chegamos ao topo de sete bilhões de almas, porém, o mundo geme de dor pelo vazio humano.

A solidão é uma sombra sinistra que nos persegue em todos os espaços. Com esse quê de onipresença, a solidão pode ser encontrada em todos os lugares. Ela tem o poder de preencher o nada. Instala-se no vazio. Preenche o que continua oco. Inunda o que permanece seco.

A geração da comunicação instantânea é vítima deste mal. De repente, estamos acompanhados de milhares de pessoas on line. Fantasmas virtuais. Miragem tecnológica. Computadores longínquos falam conosco como se a gente máquina fosse. Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Presença ausente em nossos aniversários. Dominadores, querem saber onde estamos, aonde vamos e o que estamos pensando.

Silêncio! As conversas das salas de espera calaram. Agora, todo mundo fala, mas, ninguém ouve. Todo mundo está conversando com um mundo não geográfico. A solidão está acompanhada. Acompanhada de celulares, de emojis, curtidas. Não estamos mais sós, pensamos, sempre existe alguém do outro lado dessa telinha fantasma.

Casais em lua de mel podem recusar a companhia recente. Companhia de perto não vale muito. Uma só pessoa real não vale as milhares que podem nos ver agora. É uma solidão acompanhada de gargalhadas, lágrimas e ódio. Não estou mais aqui, estou em todo canto. É o fim da vida privada. Não há nada que não caiba na tela. De repente, estamos ligados a todos e desligados de gente, de carne, de osso, de sangue e de pele.

Não são poucos os que sofrem com isso. Náufragos estão à deriva na rede. Solitários acompanhados do mundo. Ídolos seguidos por milhares fantasmas. Depressão e ansiedade logo chegam, querem juntar-se à companhia. Sem compreender as fibras dessa rede, muitos se entregam à decepção, afinal as curtidas são poucas, afinal não aparece ninguém para acompanhar essa solidão.

A solidão é muito ruim, mas, é pior acompanhada. Digam os cônjuges tristonhos que vivem a paz do cemitério. Lares silentes. Casais que não conversam, no entanto permanecem juntos, pelo menos nas linhas do cartório. Isto é algo terrível! Poucos resistem até a morte. Poucos conseguem sublimar a solidão acompanhada. Se estudarmos as causas do divórcio, certamente encontraremos essa maldita solidão.

O elevador é o metro quadrado mais “habitado” do mundo, porém, é exatamente a melhor amostra da nossa solidão. É como se vivêssemos em outro planeta. Todo mundo tem assunto para longe e quase nada de perto. O celular é a nossa correia eletrônica, é um tipo de máquina que, apesar da grande utilidade, pode funcionar como algema.

Em tantos anos de aconselhamento pastoral, a solidão acompanhada continua me parecendo uma das principais causas de separação. É muito difícil uma pessoa conseguir viver nesse estado. É muito difícil um cônjuge ser “alguém” no mundo e nada dentro de casa. Grande parte arriba.

O ser humano é gregário por natureza. O homem vive agrupado independentemente de classe social. Mendigos moribundo estão conversando. Ébrios jogados na sarjeta do vício não dispensam um bate-papo. O que conversam? Eles conversam sobre seus mundos, seus dramas e aspirações. Ninguém vive só, pelo menos não deve. Eis a razão por que asilos ainda são uma boa saída. Bons abrigos trabalham a interatividade. Assim ocorre no hospital, na cadeia, na vida. Somente o cemitério tem tanta gente pertinho e calada, pelo menos é isto que sabemos.

Às vezes, é melhor só do que mal acompanhado. Existem casos em que a solidão acompanhada dói mais. Se alguém já morreu, não tem por que vir conversar com a gente, deve ter papos de outros planos. Agora, se uma pessoa vive conosco – e não fala, não conversa – realmente essa solidão é pior. É um tipo de morte em vida, de silêncio sepulcral doméstico. Tem muita gente sofrendo agora.

A saída está em nós mesmos. Quem nos ignora não merece o nosso sofrimento. Busquemos meios de sobreviver. Livros, filmes e passeios podem ajudar muito. Se a gente for pensar bem, a solidão é um estado de espírito, é algo que percebemos em nosso interior. Porém, vazios de nós mesmos é impossível. Tem um verme dentro da gente que não para de falar. Aí, a gente corre para a inteligência e busca também refúgio em Deus, afinal ele está disponível para todo o mundo. Logo uma oração trará efeito. Logo a gente descobre que nunca está só. Existe outro mundo invisível, mas, vou deixar o tema para outro dia. Hoje, basta a solidão acompanhada.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 28/11/2017