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O CÉREBRO E O MUNDO

Quando pessoas me procuram deprimidas, eu costumo abrir a porta do escritório e convidá-las a olhar transeuntes na rua. Pergunto a essas pessoas o que veem, senão corpos em movimento. Pergunto se acham que porventura aqueles transeuntes não têm problema. Pergunto onde estão esses problemas e, depois de mais algumas observações, concluímos que a maioria dos nossos problemas estão dentro da nossa cabeça.

De repente, transeuntes dobram a esquina. Quando isto acontece, temos um ensaio do que significa nossa presença no mundo. Somos figuras que caminham sobre a superfície da Terra. Somos seres que, devido à nossa condição de inteligência, queremos carregar o mundo, queremos administrar muita coisa, e adoecemos. Muitos dos nossos problemas são mentais. Eles existem porque pensamos. Saindo de cena, eis o mundo em sua marcha indiferente.

É justamente o cérebro que está matando o mundo. De repente, homens que se julgam poderosos parecem ter escolha quanto aos eventos climáticos. Mais uma conferência findou e a questão do clima ficou para depois. A fantasiosa mente humana imagina que o mundo pode esperar. Enquanto isso, o gelo polar derrete, a temperatura sobe e os oceanos ameaçam a porção seca.

O cérebro está para este mundo assim como o hipotético asteroide que colidiu com a Terra estava para os dinossauros. Não existe meio termo. Se o asteroide cai, os seres pré-históricos desaparecem; se o homem avança a destruição do mundo, o fim é iminente.

Acho impressionante a dificuldade que seres humanos têm de compreender a sua própria inserção no mundo. estamos aqui por um lapso de tempo. Nossa história é tão curta que nem pode ser considerada no calendário astronômico da Terra. Chegamos um segundo atrás e já estamos de partida. Segundo estudiosos, não deixaremos fósseis, praticamente tudo tende a desaparecer. Água e fogo destruirão tudo.

Os nossos problemas e os problemas do mundo estão dentro da nossa cabeça. Eles resultam de uma visão deturpada da realidade. Fantasia. Obsessão. Vaidade. O homem pensa que é grande coisa contemplando o poder criativo da sua espécie. Metrópoles ocupam o chão de antigas florestas. Estamos vestidos de seda, mas, ainda não temos o poder de fabricar idêntica fibra sem desarrumar um pedaço do planeta. Voamos alto para apreciar a nossa loucura.

O mundo é estranho à política e até mesmo à arte. O mundo é estranho a tudo que pensamos. Ele é mesmo como um organismo vivo que estamos matando. Vivemos sobre um oceano de lavas, porém, sentimos apenas a maciez da nossa cama. Dia e noite sucedem-se, todavia, nós os percebemos como uma coisa comum, sem nos apercebermos de que estamos voando.

Estados Unidos fora da discussão climática é fugir da responsabilidade desse geocídio. Inaceitável. Os Estados Unidos são um dos principais responsáveis pela miséria do planeta Terra. Enriqueceram em parte desgraçando outros, enriqueceram desgraçando o mundo. Mas, a mente diminuta ainda pensa em separar o mundo por muros. Como acreditar numa coisa dessas? Que homem é este, que bloqueia os rios e cerca a terra? Que impede a migração de animais aquáticos e terrestres?

A conferência na Alemanha foi um fiasco. Mais uma vez, adiou-se o inadiável. Ninguém vai recongelar o Ártico. Ninguém vai montar novamente os icebergs. O mundo sofre pelas mãos daqueles que se declaram os mais inteligentes. O mundo agoniza pela fantasiosa ilusão da riqueza.

Veja o Brasil e o Pré-sal! Preferimos mexer com os restos mortais do planeta a procurar alternativas mais saudáveis. Neste aspecto, a Alemanha está tranquila, boa parte de sua energia provém dos ventos. Energia limpa. Anunciam-se carros elétricos. Há muito, existem, mas, a ganância não deixa esse projeto prosperar.

Assim prosseguimos nesta triste relação entre cérebro e mundo.

Rui Raiol é escritor

(Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 21/11/2017