ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Pálido ponto azul

Em 1990, quando a nave Voyager 1 completava sua visita ao Sistema Solar, o astrônomo Carl Sagan pediu que fosse feita uma fotografia do planeta Terra. Àquela distância, nosso mundo parece como um simples pontinho no Universo. Carl Sagan parou diante daquela minúscula imagem. Ele estava fascinado com a visão. Foi quando ele disse que a Terra não passava de um “pálido ponto azul”, título de um livro que ele escreveria mais tarde.

Ficamos sempre impressionados com a nossa insignificância perante o Universo. Quem duvida da existência de Deus, para prosseguir seu ateísmo, precisa primeiro fazer a lição de casa, precisa desvendar os segredos do Cosmos para somente assim, depois de concluir esse estudo, arvorar-se contra a existência da Divindade.

Certo intelectual afirmou que quando o homem disser ter conhecido o Universo, então ele terá apenas aberto a porta do quintal de casa. O Universo é algo tão inimaginável que dele ainda muito pouco sabemos. Não sabemos, por exemplo, se o Universo é algo pulsátil ou de expansão ilimitada. Tudo que que a ciência sabe de certo mesmo é que as galáxias se expandem a partir de um ponto central imaginário do Cosmos. Esse estudo da expansão das galáxias acontece por meio da verificação do prisma. Neste aspecto, a cor vermelha predomina, o que significa que os corpos celestes estão se afastando.

Enquanto a ciência se debruça sobre o enigma do Universo, vivemos mil e uma situações neste pálido ponto azul. Impérios continuam oprimindo as pessoas. Vejamos a situação da Coreia do Norte e da nossa vizinha Venezuela. Vejamos Cuba, Rússia, Síria e tantas outras nações sob o jugo de governos que se mantêm no poder a qualquer custo. Somos o único planeta habitado pelo que sabemos, no entanto, vivemos debaixo da tirania de poderosos, que coexistindo conosco em idêntica condição, tentam viver como semideuses.

O importante, porém, é saber como vivemos nós mesmos neste planeta. Acredito que o deslumbramento por nossa existência aqui deve ser o primeiro requisito que nos torna dignos do mundo. Em sua Carta aos Romanos, o grande apóstolo Paulo alertou que essa contemplação representa a primeira forma de revelação da Divindade, a manifestação mais rudimentar, à qual todos nós nós estamos sujeitos.

Quando acordamos, pode parecer que o dia de hoje é mera repetição do ontem e uma antevisão do amanhã. Engano! Cada dia é um capítulo único de nossa aventura neste pálido ponto azul. Este dia representa tudo. Ele condensa tudo que somos. Todavia, quantas pessoas vivem fora dessa sincronia. Quantas estão fora do seu tempo cronológico, vivendo este dia com a cabeça no passado ou no futuro, adoecendo e desperdiçando a oportunidade única que temos.

Talvez o estudo da Astronomia seja algo muito distante da gente. De fato, pensar em anos-luz é algo complicado. O mundo macroscópico do Cosmos foge muitas vezes à nossa compreensão. Entretanto, temos um pedacinho de mundo onde vivemos, temos um pedacinho deste minúsculo ponto azul avistado por Carl Sagan. Sendo assim, esta nossa existência nos possibilita praticamente tudo.

O mundo tem recebido muitos sábios que não conheciam letras. A sabedoria nasce primeiro dessa observação do contexto em que estamos inseridos, dessa visão macro. Essa cosmovisão, por sua vez, possibilita-nos enxergar coisas aparentemente pequenas que, no entanto, são provavelmente a razão de estarmos aqui neste remoto planeta do Universo. Afinal, como temos vivido neste pálido ponto azul? Quais têm sido nossos movimentos? Temos aproveitado bem a oportunidade para fazermos valer a pena nossa curta estadia?

Veja que não temos como falar do Universo sem falar de filosofia. Os antigos gregos costumavam sair à noite para estudar as estrelas. Eles legaram esse tipo de conhecimento para a humanidade, o saber, diríamos. Somente depois surgiu a ciência. Somente depois esta se repartiu em frações do conhecimento. É impressionante quanto uma simples reflexão sobre o Universo nos arrasta inexoravelmente à reflexão sobre todas as coisas, sobre o mundo, sobre Deus, sobre nós mesmos enquanto agentes ativos nessa passividade que sofremos no Cosmos. De tudo, o mais importante é saber como estamos vivendo agora neste pálido ponto azul.

 

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 24 de outubro  de 2017