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Arte e pedofilia no museu

Museus são espaços destinados a explorar toda sorte de conhecimento. São recintos que funcionam como causa e efeito na interação com o saber, porque ao mesmo tempo em que condensam produções despertam interesse pela pesquisa e novos conhecimentos. São importantes registros da memória que acabam funcionando também como laboratórios do saber.

Museus interativos tendem a agregar valores à pesquisa. Visitando recentemente o Museu Catavento em São Paulo, pude ver minha pequena filha Maitê, de apenas cinco anos, interagir com experimentos científicos. Nesse agradável museu, podemos estudar a formação das ondas sonoras, verificando a extensão de ondas graves e agudas. Minha filha “brincou” com vários elementos científicos, verificando, por exemplo, a diferença entre força centrífuga e centrípeta e a influência que a eletricidade exerce sobre os nossos cabelos.

Ocorre que semana passada o Museu de Arte Moderna foi acusado de incentivar a pedofilia. Na cena que varreu o Brasil, um homem está deitado completamente nu enquanto pessoas podem manipulá-lo, chamando atenção a presença de crianças, principalmente, de uma menina de aproximadamente quatro anos de idade que toca o modelo desnudo.

De acordo com o Museu, a exposição não tem nada a ver com pedofilia. Ali, durante a mostra “35º Panorama da Arte Brasileira 2017”, o que teria havido mesmo era uma encenação denominada “La Bête”, inspirada em um trabalho de Lygia Clark, “Bichos”. A intenção do MAM era trazer uma espécie de obra viva da artista, querendo que a arte “ultrapassasse os limites da superfície de um quadro”, nas palavras do próprio Museu.

O museu defendeu-se da exposição da criança com os seguintes argumentos: havia um aviso no local sobre a faixa etária da mostra – para adultos – e que a menina estava acompanhada da própria mãe no recinto da exposição. O Ministério Público de São Paulo não se conformou com essa explicação e abriu inquérito para investigar o caso.

Bem, sem dúvida, todo mundo adulto é livre para fazer o que bem quiser, desde que sua conduta não fira o regramento social. No mundo, o nudismo é aceito em alguns países. Mesmo assim, esse nudismo terá espaços demarcados. Sendo um museu, sim, é possível que existam exposições interativas sobre variados temas. Agora, permitir o acesso de crianças a conteúdo claramente seleto do público adulto é que não dá.

Sem dúvida, a permissão da presença de uma menina de cinco anos de idade na sala dessa exposição é algo repugnante. Agrava-se o fato pela interação corporal dessa criança com um adulto nu. Não se pode aceitar que pessoas adultas tratem assim uma criança, em formação ainda. A visão de mundo, a formação de valores, o sentido de cada coisa é muito diferente da cabeça de um adulto. Talvez alguém diga, então, que na cabeça da criança não existe a “maldade” que existe na nossa, portanto, justificando o fato.

A cena no museu não deixa de ser um tipo de iniciação sexual. Ver o corpo nu é algo que continua chocando adultos. Muito embora todos nós, adultos, conheçamos a anatomia humana, a nudez continua sendo o “grande segredo” do relacionamento entre sexos. Velhos e velhas podem suspirar imaginando como seria a nudez de determinada pessoa por quem se interessem. É isso que alimenta em grande parte a indústria pornográfica: todo mundo já viu o ser humano nu, porém, grande maioria está interessada a ver mais, se possível.

Portanto, como tentar abstrair esse valor de uma criança? Como não considerar que a aproximação e o toque no corpo de um adulto nu é algo que de certo modo inicia uma pessoa sexualmente de modo precoce? Aos liberais – que podem se valer de exemplos de indígenas, por exemplo – vale lembrar que o nudismo não faz parte do nosso modelo cultural. Sexo continua enriquecendo indústrias e artistas – inclusive algumas cantoras – porque a nudez continua sendo também um mistério dentro da nossa cultura. Artistas ganham pela insinuação à nudez. Mesmo quem se despe para ganhar dinheiro através da arte visual, tem todo um cuidado para não se banalizar.

Neste aspecto, é ineficaz e nula a autorização da mãe. Trata-se de direito inalienáveis protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A presença do responsável não pode atenuar a responsabilidade institucional de quem expôs a menor a essa situação.

 

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 3 de outubro  de 2017.