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A diferença entre o pobre e o rico

A diferença de classes sociais é um dos fatos que mais incomodam a humanidade. Por causa dessa estratificação, não são poucos os que sofrem, deprimem-se e até morrem. Porém, descontada a condição mínima de vida, a riqueza não é assim esse valor tão aclamado, não havendo grande diferença entre o pobre e o rico.

Ambos os indivíduos são praticamente iguais em termos biológicos. Cada qual nasce com seu mapa genético, suas predisposições e certa expectativa de vida. Olhando o mapa de longevidade do mundo, não vemos que ricos superem os pobres neste item, se existe é coisa pontual, um dado perdido. Há pobres que, contrariando todos os prognósticos, são absurdamente longevos, ao passo que alguns ricos desaparecem de modo precoce.

Não é a comida que separa o rico do pobre, quando muito são os olhos. Ricos têm mesa farta, que, todavia, é mais decorativa; enquanto pobres não têm muito como enfeitar a mesa, no entanto, comem tudo que é posto. O corpo não é rico nem pobre, o corpo é neutro à nossa ideia social. Descendo esôfago abaixo, carne será proteína, não importando se foi classificada como filé ou tripa. Decomposta, cada porção de alimento fornece uma quantidade de energia, e só.

Falando nisto, a mesa farta e ufanista já é algo bem diferente segundo depois da mastigação. O bolo alimentar é de uma visão nada agradável. Devemos comer de boca fechada porque ninguém suporta ver aquele pirão gosmento revirando em nossa cavidade bucal. A beleza que se põe à mesa é apenas visual. E vamos parando aqui, para não detalhar o processo.

Podemos ter dinheiro suficiente para comprar um restaurante, não adianta nada: comemos sempre por vez. Não podemos almoçar duas vezes, jantar de tarde e de noite, nem lanchar bem a cada hora. Então, nenhuma diferença entre rico e pobre quanto à comida.

O mesmo se aplica à roupa, carro, utensílios: usamos um item por vez. Se você tem uma formidável coleção de sapatos, paciência! Terá de usar apenas um par. Se usarmos três camisas, vão falar mal da gente. O nosso corpo não conhece riqueza e pobreza, nem por dentro nem por fora.  E, se alguma diferença puder ser notada externamente, pelo lado de dentro somos irreconhecíveis. Se, por algum fenômeno estranho nossos corpos fossem virados do avesso, isto seria o fim dos nossos sistemas de identificação pessoal. Do lado de dentro, a diferença entre rico e pobre é totalmente nula.

Então, pense agora, por exemplo, na diferença que existe entre o famoso e rico jogador Neymar e você, talvez pobre em relação a ele. Imagine Neymar passeando no seu iate de quinze milhões. Imagine você atravessando o Arapari. Qual a diferença? Apenas a paisagem, apenas a sensação de cada um. Caso você estivesse de carona naquele iate, a viagem seria a mesma para você e o dono da embarcação.

A riqueza é um valor que se apreende pelos sentidos. Ela não pode fazer parte da gente, sendo completamente estranha ao corpo e à alma. Além da necessidade de subsistência e segurança, o dinheiro é um valor que desfrutamos apenas pelos nossos sentidos. Vemos o que compramos. Tocamos o que é “nosso”, sem nunca fazer parte do nosso corpo. Ouvimos o ruído do motor. Sentimos o gosto da comida. Não existe nenhuma diferença entre o rico e o pobre além da impressão que se pode ter da riqueza.

Alguns poderiam dizer que a riqueza que têm pode ser provada pela mansão luxuosa em que vivem. Ledo engano! Todos nós estamos a descobertos debaixo do céu. Não somos diferentes dos pássaros. Nossas lajes e portas blindadas operam mais contra a gente que a favor. Vejamos o que acontece durante os terremotos. Sabe qual o lugar mais seguro do mundo nessas horas? A rua. Exatamente! A rua, símbolo de exposição e desconforto, torna-se rapidamente a nossa grande casa, lugar seguro, lugar onde podemos escapar do que a nossa riqueza construiu.

Alguém poderia argumentar que a riqueza traz conforto, que, por exemplo, precisa de uma grande cama para dormir, cama que o pobre não pode comprar. Ilusão! O tamanho necessário da cama é exatamente o tamanho do nosso corpo. Ainda que alguém seja espaçoso, gostando de rolar no leito, em cada fração do movimento, o tamanho da cama estará delimitado pelo tamanho da gente.

E quer saber além? Não dormimos na cama, dormimos dentro da nossa cabeça, quando a nossa grande máquina desliga e saímos do estado de vigília. Eis a razão de alguns pobres dormirem profundo, ao passo de alguns ricos – lembrando Michael Jackson – não conseguirem desligar. Eles têm mansão e conforto, porém, não descobriram ainda onde dormem. Eis a diferença entre o pobre e o rico: nenhuma.

 

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br