ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O risco de cair

Um antigo pastor já falecido contou certa vez à Assembleia de Deus em Belém um susto que levou quando servia no campo missionário. Numa tribo remota da África onde trabalhava, o canibalismo era permitido quando uma pessoa inimiga caísse no chão. Recém-chegado ali, pastor Lourenço, um senhor idoso de peso avantajado, lembrou durante o culto que, vivendo uma situação real de risco, orou a Deus, dizendo: “Senhor, não me deixe cair aqui, senão vou dar muita carne!”

Lembrei desta história ao pensar na situação de insegurança que governa as cidades brasileiras. Vivemos um estado de coisas em que corremos risco em todas as situações. Corremos risco em casa, nas ruas, no transporte público, corremos risco no carro particular. Neste, corremos risco correndo, corremos risco parando nos semáforos, risco no embarque e desembarque e corremos risco quando quebramos.

Por duas ocasiões relativamente recentes, senti na pele o que significa ter um problema de carro em Belém. Primeiro, foi uma pane que me obrigou parar na Almirante Barroso com a Cipriano Santos. Era uma manhã de domingo, de repente, o carro novo parou. Pronto! A situação de risco estava instalada. Muito embora o carro tenha parado bem junto ao canteiro da pista lateral direita, ônibus desviavam suas rotas para passar “raspando” o veículo quebrado.

No começo, eu não acreditei, devia ser coinsciência, mas, a repetição convenceu-me de que havia algo errado nem tanto comigo, porém, com algumas pessoas que passaram por mim enquanto eu precisava de ajuda. Não pude deixar de lembrar a Parábola do Bom Samaritano. Durante cerca de quarenta minutos, sofri toda sorte de zombaria. Apenas um senhor aproximou-se perguntando se podia ajudar. O resto ficou indiferente, escarneceu e até tentou a todo custo piorar a situação.

Nem a colocação do triângulo sinalizador resolveu. Ônibus e outros carros continuaram se atirando em direção do veículo em pane. Nessa hora, eu tomei consciência de que o pior podia acontecer, se alguém conseguisse provocar um prejuízo. Então, tomei a decisão de me encostar no veículo, junto à pista, a fim de intimidar os motoristas que insistiam em passar coladinho ao carro onde eu estava. Melhorou um pouco, porque agora teriam de me atropelar,mas, não resolveu de todo. Precisei ter muito cuidado.

Um motociclista saiu da faixa da esquerda onde estava, entrou na área protegida pelo sinalizador apenas para chutar o triângulo e derrubá-lo. Pura maldade, impiedade, gente péssima! Mesmo estando as demais faixas totalmente liberadas, alguns motoristas faziam questão de entrar no pequeno espaço entre o triângulo e o carro, ziguezagueando, apenas para provocar. Uma situação absurda!

Francamente, eu senti um certo tipo de “vingança”, uma inveja coletiva perpetrada por algumas pessoas que, vendo um carro novo parado, aproveitavam o momento para externar sei lá o quê, talvez a amargura de não poderem estar numa situação dessa, sei lá. O que eu sei mesmo é que a minha avaliação do povo brasileiro e, especialmente, de moradores de Belém, não é mais a mesma. Eu nunca imaginaria isso. De repente, eu estava precisando de auxílio, mas, enquanto o socorro não chegava, meu maior problema estava com aqueles que estavam cruzando o meu caminho.

Agora, imagine se isso acontece com alguém de noite. Imagine se é uma rua deserta. Bem, a insegurança não é apenas uma questão de bandido, de gente armada ou coisa semelhante. Não. Parece que estamos vivendo mesmo num meio bastante hostil. Há uma beligerância no ar, um vontade de vingança, uma frustração a ser descarregada etc. Justamente eu, que, pela graça de Deus, não permiti que um jovem fosse morto pela população na porta casa onde moro, agora vivia esse estado de coisas. Ocorre que não estou classificado entre delinquentes, nem tantas pessoas que passaram por mim naquele dia estão. Tem alguma coisa errada!

Estamos quase revivendo a experiência daquele saudoso pastor. Belém é uma terra muito arriscada para precisarmos de ajuda. Temos de lutar para não precisar parar o carro. O risco de cair é muito grande. E se cair, mesmo durante o dia e na Almirante Barroso, hienas e cães selvagens logo se apresentarão para tentar rasgar a presa ainda viva. Deus tenha misericórdia das pessoas de bem desta cidade!

 

 

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 5 de setembro  de 2017.