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A profecia de Alexander von Humboldt

A extinção da reserva situada entre os Estados do Pará e Amapá aproxima-nos ainda mais do fim. Essa extinção é uma espécie de selo apocalíptico que prenuncia o derramamento da taça da ira da natureza sobre nós. O fato resulta de uma atitude equivocada do ser humano, que tenta governar o mundo como máquina administrativa.

Lamentamos e repudiamos a destruição do nosso ecossistema. Lamentamos que a Amazônia continue sendo explorada pelo capitalismo destrutivo que visa construir seus impérios financeiros mediante o sacrifício de milhares e milhares de espécies, inclusive o próprio homem.

Até a presente data, a Amazônia tem sido extorquida. Nossas riquezas são apenas para poucos. No Amapá, mineradoras exauriram nossas reservas de manganês, levaram todo o ouro. Foi assim aqui no Pará, no fatídico garimpo de Serra Pelada. Desgraça. Miséria. Morte. Esta é a síntese do que restou. Se alguém ficou rico, não foi o povo. O povo colheu e colhe as consequências.

No início do Século XIX, o cientista alemão Alexander von Humboldt trabalhou aqui na Amazônia. Naquele tempo, a natureza era vista como inimiga do homem. A ideia era subjugá-la para o bem da humanidade. Contemporâneos importantes de Humboldt chegaram a propor aterrar pântanos a fim drenar suas águas. Outros sugeriram que somente a derrubada de florestas poderia resolver o problema da falta de ventilação em determinados lugares.

Humboldt foi o primeiro a enxergar diferente. Viajando pela Venezuela, escalando montanhas e atravessando nossas florestas tropicais, ele observou que algo deveria estar errado naquela constatação. Sua observação concluiu que o homem, este sim, era quem alterava o equilíbrio do mundo e que, portanto, não era a natureza que precisava mudar, mas, o homem, o homem ambicioso. Este foi olhar de Humboldt também sobre os indígenas e escravos.

Segundo Humboldt, um simples pedaço do mundo pode conter uma miniatura dessa perfeição do ecossistema. Numa pequena área da natureza, ar, terra e água vivem em perfeita harmonia com as espécies que vivem nela. Porém, basta o homem chegar, e tudo pode mudar em pouquíssimo tempo.

A Amazônia é um paraíso sacrificado. Nossos animais são arrancados de seu habitat para gerar lucro nas mãos de traficantes. Nossas plantas têm o mesmo destino. Nossos rios são assassinados. Somos a porção mais importante para a preservação do mundo, porém, estamos no epicentro do capitalismo estatal. A Amazônia é morta pelas mãos daqueles que a deviam proteger.

Francamente, não compreendo uma decisão dessa. Não acredito que isso é nacionalismo. Não acredito que o sangue da Amazônia seja a solução para o Brasil. Francamente, não. Estamos cansados desse discurso. Estamos cansados de extorsão. Deixem a Amazônia em paz! Neste país continental, existem outros meios para o governo fazer caixa. O preço é muito alto para ficarmos calados.

Alexander von Humboldt previu há mais de duzentos anos que mexer com a natureza era mexer com a própria vida no planeta. Políticos devem esquecer seus gabinetes modernos. É ilusão o que se vê. O mundo não é manufatura. O mundo é matéria-prima, é água, ar, floresta. O mundo é mar, plantas, animais. Loucura viver essa tecnocracia cega. Todos nós fazemos parte desse contexto. O mundo é uma bola de vida. Matem aqui, e ali, e ele começará a morrer. Façam feridas, o mal pode vencer.

Humboldt descobriu a famosa corrente oriental da América do Sul que leva o seu nome. Essas correntes são a respiração das águas, exercem importante papel sobre o clima do mundo. Desmatar e poluir gravemente a Amazônia pode alterar algumas correntes e causar sérias consequências.

Acredito que chegamos a um estado de consciência global para repensarmos essa ficção chamada soberania nacional. Decisões assim, que podem afetar gravemente o ecossistema, deveriam passar pelo crivo do mundo. O Brasil não tem revelado sanidade ao mexer com o seu ecossistema, então, que organismos internacionais sejam autorizados a aprovar ou reprovar esse tipo de medida. Não podemos continuar governando de modo autóctone quando se trata de mundo.

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

Publicado no jornal O Liberal em 29/8/2017