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Viagens mentais

Crianças fazem o que querem; adolescentes e jovens, buscam independência e estilo próprio; adultos, curtidos da vida, sabem muito bem o que pensam e assim fazem melhor suas escolhas. Aparentemente, seguimos o nosso próprio entendimento. Na verdade, somos passageiros de viagens alheias, nossa viagem não é um itinerário próprio, nossa viagem também é carona de outras mentes que nos influenciam.

É difícil selecionar um pensamento que seja exclusivamente nosso. Desde pequenos, nossa forma de pensar deriva em boa parte do meio que nos circunda. Nosso pensamento é pouco ação e muito reação. Pensamentos da infância resultam dessa troca com o meio. Pensamos o que ouvimos, falamos o que pensamos. Se isto nem sempre resulta de uma mensagem direta, a paisagem incumbe-se de dizer o que devemos pensar.

Criancinhas riem diante de um brinquedo e choram pela sua ausência. Calam-se pela afetuosa voz materna. Ou gritam justamente por ela. Muito difícil definir o que somos, o que é nosso pensamento e até mesmo emoção. Choramos as lágrimas dos outros. Sorrimos sorrisos desconhecidos. É assim com a criancinha. É assim ainda hoje quando viagens mentais correm sobre trilhos de lágrimas. Fracassamos o nosso eu, choramos o choro alheio da mesma forma que estampamos um sorriso largo pela vitória de um time que nos chama anônimos.

Desde o útero, somos viajantes mentais de pensamentos alheios. É isto que acontece agora: você está me seguindo nestes meandros, tentando ver aonde vou parar, talvez sem se dar conta de que está indo junto comigo. Eis um processo vital, tão preso à vida quanto às moléculas que constituem o nosso ar. Não conseguimos separar nada. Respiramos hidrogênio dobrado como se fosse um solitário oxigênio. Não pensamos, respiramos, é inevitável, é vital.

Assim, temos muitas estradas. Existem estradas coletivas e tantas individuais. As mídias sociais são grandes redes que carregam milhões de pessoas de uma vez só, um clique, e já estamos seguindo, curtindo, compartilhando, e mesmo que a gente não faça nada, só de estar na rede, já estamos de viagem. Somos reféns do que os outros pensam. Alguns formam opinião, e muitos seguem. De repente, vamos votar no Bolsonaro, no Lula, no Aécio. De repente, melhor opção é a Marina, ou quem outros pensarem por nós. Nesta viagem mental, pensamos ideias alheias.

Mas, não nos enganemos: nem tudo é viagem coletiva, como dissemos, nem mesmo nessas mídias sociais bilionárias de gente. Não. Cada criatura adicionada é uma adição à nossa viagem, é mais um que vem nos puxar para o seu itinerário híbrido. É assim que acontece em casa, na rua, no trabalho. É assim que acontece na missa, no culto, no terreiro, somos seguidores mentais uns dos outros, mesmo dos que permanecem calados. Que influência tem aquele frequentador do culto que nunca fala, nem gesticula? Nem pense! Caladinho, ele está falando, fazendo a gente pensar, fazer juízos sobre o seu silêncio e assiduidade, quem sabe até nos despertando mais do que o pregador.

Bem, o resumo do quero dizer é isto: seguimos pessoas, queiramos ou não, seguimos suas mentes, suas viagens mentais. Logo, se você convive com alguém que está avançando na vida, aperfeiçoando seu curso de pessoa, estudando, então, é de esperar que você cresça nessa companhia mental. Porém, se a mente de quem nos influencia estiver parada, estagnada, retrógrada, como sobreviver a esse tipo de coisa? Difícil, amigos, difícil!

Você chega ao trabalho, e seu chefe parou no tempo, mas, apesar disto quer papo, digerir o que já devia estar apodrecido, sepultado. Talvez, você precise viajar com ele mesmo assim. Caminhos terríveis! Meandros doentios de quem não alcançou o sentido da vida. E na igreja, o que você pensa que acontece? Acha que o pregador pensou todo o sermão agora? Não, aquilo é a viagem da vida dele, o que ele pensa, o que ele faz, o que é. Então, você lança-se de mente aberta, e talvez embarque numa viagem fantasiosa sem pé nem cabeça.

Todo mundo nos influencia. É preciso cuidado com algumas viagens. Não queira estar perto de quem não tem nada para contribuir. Ajude. Coopere. Depois, saia de fininho, preserve sua mente. Hoje, a gente é muito bombardeado com más notícias. Às vezes, é melhor não saber. Por que vou querer embarcar no derradeiro minuto de alguém que viveu um caminho mental tenebroso? Por que sofrer com ele essa trágica parada? Temos de guardar a nossa mente. Se não podemos evitar certas viagens, pelo menos vamos afastar o que podemos. Afinal de contas, o que uma pessoa de bem quer é viver com qualidade vida.

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

Publicado no jornal O Liberal em 15/8/2017