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A ilusão da riqueza

Vivemos em um país dos escândalos. Caso nossas riquezas tivessem sido preservadas, essas que se esvaíram dos cofres públicos, é bem provável que já estivéssemos no topo do mundo. Sim, porque o dinheiro não é pouco e a história é velha, remontando aos tempos da chegada de Cabral a esta terra chã, na melhor descrição de Caminha.  A gente fica ouvindo os relatos contínuos dessa derrama, e são pilhas e pilhas de milhões.

Mas, não obstante toda construção teórica que se possa ter sobre saúde política, bem como medidas práticas para evitar o saque, a questão é bem mais profunda. Embora o assunto pareça não pertencer nem minimamente ao campo de atuação do Estado – apesar deste ser a principal vítima – sem dúvida, a corrupção política está ligada diretamente a valores metafísicos sobre a importância do dinheiro.

Afinal de contas, de quanto precisamos para viver? E de quanto, de verdade, podemos nos apropriar? Muito pouco. Não existe nenhuma diferença entre o rico e o pobre no tocante às funções do corpo. Uma plástica ali, uma dietazinha melhor aqui, mas a nossa vida muito pouco se altera em função do dinheiro. Pobres podem ser longevos, enquanto ricos podem sucumbir precocemente. Do ponto de vista da existência, precisamos de ar, água e comida. Mas a mente afetada pelos cifrões acha que precisa cada vez mais de grana.

Nossa limitação no tempo e no espaço não nos permite usufruir diretamente além do corpo. Alguém pode ter dez carros, mas, andará em um por vez. Isto se aplica a tudo, inclusive à comida. O luxo dos grandes restaurantes termina em “lugar escuso”, para lembrar a advertência do Mestre.

A felicidade parece estar ligada diretamente à nossa batalha diária pela sobrevivência. Pessoas de vida modesta conseguem enxergar muito bem o que têm e se alegrar por isso. Se conseguem as mínimas condições de vida, podem viver bem felizes, recebendo cada dia como um presente do Criador. Ao contrário, aqueles que têm muito podem apresentar uma felicidade flutuante. Alguns perderam toda a noção de suprimento diário. O Sol nasce e se põe apenas como um capítulo de lucro. O sentido da vida foi perdido.

É interessante que, à proporção que aumenta, a riqueza torna-se apenas um dado contábil. Acredito que nenhum rico dos nossos dias tem o prazer do Tio Patinhas, de nadar em sua fortuna, de ter uma contemplação do seu império reunido. Não. Hoje, a riqueza se torna cada vez mais fria e desligada corporalmente de seu dono. Ouvi o Sílvio Santos comentar certa vez sobre uma grande fazenda que possuía aqui no Estado do Pará, afirmando que jamais colocou os pés nessa propriedade. Quanto mais alguém é rico, mais distante dele fica essa riqueza. Esta não passa de relatórios de aplicações financeiras e suas demonstrações de perdas e ganhos.

O maior engano do ser humano é achar que é rico. Na verdade, todos os homens vivem apenas revirando o planeta. Drenamos canais naturais. Aplainamos montes. Escavam-se minas. Reúnem-se minerais para uso direto ou para a formação de outros elementos. Tudo o que nós vemos com a assinatura humana é fruto desse interminável trabalho de manipular o planeta. Carros importados? Minérios, couro e um mundo de componentes que saíram da natureza. Arranha-céus fabulosos? Terra revirada do planeta, empilhada, um aperfeiçoamento da Torre de Babel.

Assim vivemos: desde o nosso nascimento, saímos mexendo com a crosta terrestre, cercando o que, em sua concepção original, não admite fronteiras. Cavando. Edificando. Plantando. Vendendo. Lucrando. E vamos guardando tudo no mesmo espaço chamado mundo, pois ainda não temos ilhas fiscais alienígenas. Até que chegue o nosso dia de partir, quando então ficará claro que o nosso corpo voltará ao pó e tudo o que é do mundo voltará à administração dele, ainda que transitoriamente herdeiros continuem acreditando que têm alguma coisa neste torrão.

Agora, com a operação Lava Jato, de novo percebemos que muita gente acredita que pode dominar o mundo. As cifras estão em milhões. Bilhões. Para que o ser humano deseja tanto dinheiro? A fortuna vai lhe garantir a imortalidade? Pode alguém sair da Via Láctea e fundar uma civilização própria? Pode estender a sua vida para cem ou duzentos anos? Essa riqueza pode evitar que seus “donos” morram, assim quanto o mais humilde ser humano?

 

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

Publicado no jornal O Liberal em  8/8/2017