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Quando cai o Judiciário

Assistimos, estarrecidos, ao achincalhe do Poder Judiciário no Brasil. Exceções à parte, a causa de certa zombaria ao Judiciário resulta do fato de este Poder estar exercendo o seu mister. Não se está zombando de corrupção na carreira jurídica, não se está zombando inércia ou morosidade. Não. Uma significativa parcela da população está condenando o trabalho conjunto da Polícia Federal, Ministério Público e Justiça Federal.

No epicentro, está o juiz federal Sérgio Moro. Iniquidade dele? A coragem de exercer o papel ao qual tem se preparado. Ficamos mesmo estarrecidos que um tipo de populismo exagerado comece a ameaçar a paz democrática em nosso país, ameaçando a todos nós de cair na sarjeta política onde se encontra hoje a Venezuela de Nicólas Maduro.

Somos um país onde condenados debocham publicamente da Justiça. Somos o país onde um acusado sai do tribunal para fazer comício em praça pública, difamando instituições de que antes dizia se orgulhar. Ora, meus amigos, a lei é para todos. Quem tem oportunidade de fazer o bem, faça, mas, não se condene pela própria doutrina que prega.

Lembrando a metáfora aplicada à Escritura, a política também é uma afiada espada de dois gumes. Na mesma proporção em que o discurso e a persuasão política derrubam regimes autoritários também armazenam esses argumentos contra si mesmos. Quem se ergue em praça pública para pregar moralidade, deve viver como exemplo do que prega.

Afora isto, temos o mesmo tipo de fanatismo que domina o campo religioso, por exemplo. O Brasil é um terreno fértil para manipuladores. No campo da religião, por exemplo, temos sujeitos que, ontem pobres, hoje estão milionários à custa da extorsão da fé alheia. Tais sujeitos deveriam estar presos porque são bandidos. No entanto, são idolatrados pelos seus adeptos, que insistem em ver Deus na vida de uma pessoa que não suporta enfrentar a luz jurídica que analise suas contas, e isto, claro, à luz da verdade mesmo.

Agora, no campo político, não lidamos com dogmas. Dogmas na política é câncer, tem de ser extirpado em prol da vida da sociedade. Este populismo no Brasil, que afronta pessoas de bem do Poder Judiciário, precisa parar. Não podemos tolerar apologia a nenhum tipo de crime.

De fato, estamos caminhando para a Venezuela. Eu fico pasmo de ver como um só homem pode se manter no poder, escravizando toda uma nação em pleno século XXI. Fico pasmo de ver um exército que se rende a esse tipo de ditadura que está se instalando na Venezuela, com todos os requintes de crueldade e desrespeito total a leis internas e externas daquele país.

Parece que alguns não estão preocupados com isto no Brasil. Ora, meus irmãos, o presidente Lula teve nas mãos a chance de sair da história como um dos melhores presidentes. Se ele fez coisa errada, ele deve ser julgado como homem, porque ele não é Deus. Temos de recrudescer esse populismo doentio. Temos de nos curvar perante à Justiça quando esta está fazendo o seu trabalho.

Agora, julgamentos como o do presidente Lula e demais envolvidos seguirão para análise de segunda instância. A decisão deixa de ser monocrática. Seria possível que tantos desembargadores federais também não saberiam interpretar a lei? Será possível que o ex-presidente seja condenado injustamente por várias mãos? Não me parece razoável admitir.

Sabemos que, politicamente, isto traz resultados ruins e indesejáveis ao partido do Presidente e coligados afins. Mas, isto são os ossos do ofício. A quem é dada a oportunidade de ter um dia a chave financeira do País em mãos, tem de responder pelos seus atos. O que não se pode é derrubar o pilar do Judiciário. Quando a Justiça cai numa nação, cai a própria nação.

Que Deus nos conceda paz e serenidade para buscarmos tão somente a verdade. Caso o ex-presidente seja de fato inocente, que a luz de Deus brilhe acima de todo raciocínio humano, e ele se livre. É só isto que queremos: a verdade. Além disto, é cegueira e fanatismo.

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 25/7/2017