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O troco da corrupção

A Operação Lava Jato está revelando montantes vultosos desviados dos cofres públicos. Ouvimos falar de milhões e milhões. Ouvimos falar de contas no Exterior. A primeira impressão é que as cifras da corrupção giram sempre na casa dos seis dígitos. Engano.

A corrupção política brasileira é uma teia de aranha, tem fibras longas e tem fibras curtas. Os holofotes estão acesos porque gente grande balançou a rede. Mas, não nos enganemos, existem muitos outros que se alimentam. A coisa não se explica apenas pelo alto escalão. Corrupção não é exclusividade de ministro, muito menos de presidente. Pessoas que ocupam esses postos altos na pirâmide governamental não têm vida secreta. São vigiados dia e noite pelos seus aliados.

Se ouvíamos falar apenas em milhões e milhões, de repente, eis a mala de quinhentos mil reais. De repente, vemos o troco da corrupção. Eu penso que é praticamente impossível alguém se corromper sozinho no governo. Corrupção pública exige solidariedade, é uma relação de causa e efeito, elos indissociáveis da corrente.

A corrupção brasileira não é coisa apenas de Brasília. Diríamos que ali é o grande cofre, mas, existem focos ativos desse vulcão ao longo do território nacional. Federal, estadual, distrital e municipal articulam-se perfeitamente para corromper o dinheiro público, num tipo de pacto pela desgraça do nosso povo.

A partir da mala meio-milionária, vemos que a corrupção é também coisa móvel, que facilmente se transporta. É assim que funciona. Depois que o cheque administrativo foi extinto, o Siafi tornou-se o meio mais transparente de gerir os recursos públicos no Brasil. Mas, o Siafi é a apenas um tipo de banco on line que identifica precisamente quem deposita e quem gasta. Mas, isso não resolveu o problema.

Consta que Temer liberou um bilhão de reais para emendas parlamentares. Isso foi apenas ato de governo? Difícil crer quando o desembolso é contemporâneo de uma grave denúncia contra o presidente. A oração de São Francisco é recitação obrigatória no Planalto.

Agora, responda-me: por que liberar um bilhão? Seria trabalho parlamentar sério? Acredito que sim, em parte. Penso que uma boa fatia pode virar troco da corrupção. Federal vê sua emenda aprovada, mas, isso preciso virar dinheiro, vai cair na conta de estados e municípios. Para quê? Para obras e serviços? Quem recebe, é confiável? A aplicação será correta? Haverá prestação de contas? Sim, haverá prestação de contas, porém, não me pergunte os números nem as justificativas.

É assim que a Operação Lava Jato precisaria abrir outras frentes. Tem muita coisa lavada. Estados e municípios talvez não tenham a tecnologia dos lava-rápido, mas, no mínimo, têm suas bacias, seus tanques, seus baldes. É quando poderia aparecer o troco da corrupção. E não desprezem esse troco: juntando tudo dá muita grana, quem sabe maior do que foi lavado a jato.

Somente o troco da corrupção justificaria o baixo clero da Câmara votar coisa não votável. Emenda é coisa de gente grande, mas, tem quem se contente com o troco. Cem mil reais é dinheiro, duzentos mil faz a festa e nem precisa de mala, pode ir mesmo no bolso, na cueca, parar na conta da sogra – coitado de quem confiou!

Nem tudo é casa de seis dígitos, cinco ou quatro corrompem muito mais, pelo menos em número. De corrompidos Afinal, se autoridade pública é vigiada, a solidariedade tem de ser perfeita, e solidariedade política se compra. Aí, é preciso agradar ministros, parlamentares e outros do nível. Assessores não podem ficar de fora, sabem muito, viram tudo. E a fila anda sem parar, até chegar ao motorista que transportou e ouviu conversas, ao segurança que nunca descola, a todo que sabe ou venha a saber.

O troco da corrupção construiria escolas, tiraria muita gente da fome. Todavia, é uma gorjeta necessária, uma corrupção vultosa ou “agrado”, um presentinho que não podia ser esquecido. Gregos e troianos não ficam sem troco. Se não podem botar a mão na grana, moedinhas servem, valem milhões.

 

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 18/7/2017